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Entardecia quando tocaram à minha porta

por JQ, em 18.12.13

See her picture in a thousand places

‘Cause she's this year's girl
You think you all own little pieces

Of this year's girl
Forget your fancy manners
Forget your English grammar
'Cause you don't really give a damn

About this year's girl

 

Elvis Costello, 1978

 

Numa destas manhãs, asseguravam as marionetes do televisivo costume que o opinativo líder «A» tinha dito ninguém ao certo sabe o quê, mas nisso marcara mais pontos que o opinativo líder «B», ou, nisso implícito, que o líder «C» perdera a voz por falta de comparência, de que todos, tanto ou ainda mais do que ele, são responsáveis. No local de trabalho, reparei na divagação de uma colega, horrorizada mas com um sórdido capricho no pormenor, sobre mais um crime passional numa terríola do país "interior". Durante o solitário almoço num sítio do meu costume, consegui apanhar num rodapé dum telejornal «Ladrões atacam nas barbas [de quem já não sei]». À saída do trabalho, vislumbrei, de relance num quiosque, os pormenores escabrosos da separação entre uma bimba televisiva e um filósofo com muitas aspas, frequentador de pasquins sem nenhumas. Ao regressar a casa, num transporte cada vez menos público, não pude deixar de ouvir um grupo de mulheres a comentar – ainda? - algo sobre a orientação sexual de uma celebridade qualquer que, num concurso também qualquer, alimenta suínos vestida de «Gucci» e marcas igualmente pimba-chique.


Represente, ou não, tudo isso o que por aí vai, certo foi que, por volta das 17:30 de hoje, tocaram à minha porta. Era uma mulher de incerta idade, com olhar, cabelo, voz, roupa, gestos, sapatos, enfim, tudo nela com um aspecto cansado. Se existisse um catálogo de pobres – e quem me assegura que alguma «tia», com duplo «T» e incontáveis «Y» no sobrenome, não terá já criado tal género? – esta mulher não seria classificada no subtipo «sem-abrigo», mas assentaria perfeitamente em «pobre, já não de barraca, mas de bairro social degradado».


Antes de poder dizer-lhe «boa noite», já ela tinha desferido «Não tem alguma comida que me possa dar-me?». Assim mesmo, com um «me» a mais, mas, felizmente, sem «Tês» a sobrar, nem «Is» transformados nos «Ípsilons» da triste actualidade. Também náo desenhou nenhuma cara de canídeo abandonado, nem abusou das minhas orelhas, relatando as desgraças da sua vida. Perguntou apenas: «Não tem alguma comida que me possa dar-me?». Foda-se!, nem hesitei, mas o que real e subjectivamente me fode não vem ao caso. Enchi um saco do que pude e, logo após, como se lhe tivesse dito: "Isto 'tá difícil. Tente o vizinho do lado", fiquei agoniado.

Pensamento abominável após o fecho da porta: “Ceús! Nesta terra há pobres que já não pedem dinheiro”. Recordação de uma infância demasiado católica: “A caridade é um dever, nunca motivo de orgulho”. Recordação demasiado distante dos idos de 1975: “A caridade é um logro. Quando damos esmola não estamos a ajudar quem pede, mas a atrasar a sua revolta, impedindo que lutem por melhorar as suas condições de vida”. Estatística oficial e oficiosa, mais amadora ou menos maliciosa, e, enquanto tal, merecedora de qualquer dúvida, mas que já se repete, e aprofundando se vai, ao longo da última década: “um quarto dos portugueses vive abaixo do oficial patamar da pobreza”. Oficial...

 

Assim sendo, o que fazer? Investir no artesanato de bombas domésticas ou num sono bem-parecido, ou seja, na divulgação de versos e ilustrações de gente que, como eu, já não acredita em qualquer redenção, nesse fulcro talvez positivo, subjacente ao melhor da maior parte das pessoas? Parecendo que sim, a resposta não está implícita na questão. Apenas ressona, à espera de um safanão mais generoso.

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Alguns riscos


Indícios?, por demais

um tremendo cansaço

de coisas feias, e daí

sons, diversos traços

caracteres alguns

de um rasto só


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Demasiados. Não cabem aqui. É tudo gente discursivamente feia. Acendendo a TV ou ouvindo quem fora dela reproduz agendas mediáticas, entre o vómito e o tédio a lista tornar-se-ia insuportavelmente longa.


Uma chave, mais um chavão? A cultura popular do início deste séc. XXI fede !


joseqcarvalho@sapo.pt


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