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por JQ, em 11.02.14

- Tio, não sei se sabes, mas há um rasgão no continuum espaciotemporal mesmo por cima da tua casa.

- Hum?

- Sim, essa rede de coisas e memórias que foste tecendo à tua volta deixa muito a desejar. Tem buracos e túneis povoados de coisas muito terríveis.

- Ah, bom, uma questão de tecido? Nunca pior. Costureiras nunca me faltaram. A sério, fui criado por uma dúzia delas e sobrevivi. Pensei que fosse mais grave.

- E não é?

- Não, deveras que não. Nunca nada é contínuo, excepto a passagem do Tempo pela pele e demasiados versos contemporâneos, não só lusos, servos da sintaxe mais previsível, frases partidas talvez no pudor de serem considerados apenas prosa…

- Tio, não vás por aí.

- Claro que vou. Quebras estão sempre a acontecer: nas dissonâncias de Ligeti e de Zappa, por exemplo, também nos versos de Franco Alexandre e, mais ainda, em Cesariny de Vasconcelos; no percurso de todas as vidas, não esquecendo a infinita quantidade de buracos nas ruas de Lisboa.

- Tio, há dias em que és perfeitamente inconversável.

- Tens razão, claro, mas… inquê?!*** Quem raio te ensina a falar assim? Aindas lês jornais ou perdes tempo com telejornais? Se sim, considera-te desde já deserdado.

- Mas deserdado de quê?

- Isso, sim, é uma boa pergunta.

 

 

*** assunto minimamente conexo: um vídeo curioso, encontrado num dos “alívios cómicos” do blog Arpose, em que a ocupante do segundo cargo mais sonoro desta república pimba, de forma absolutamente indigente, se limita a comprovar que somos governados por gente que não só fala, mas pensa deveras mal. O vídeo tem pouco mais de um minuto. Talvez se inconsiga desaguentá-lo até ao fim.

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De Miguel Barcelos a 14.02.2014 às 17:06

Ela parece pouco saudável, ou é de mim?
Os versos de sintaxe previsível são mais fáceis. Talvez seja só uma economia de esforço.
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De JQ a 16.02.2014 às 01:08

Assistir diariamente a sessões parlamentares talvez arruine a saúde de qualquer um. Suponho que a melhor poesia possa ter o mesmo efeito (lembro-me de um verso de Boris Vian: “Il y a des mots qui vous rendraient malades”). Quanto aos "versos com sintaxe previsível" (que até foram os que me permitiram começar a ler poesia nesta idade "avançada", depois de décadas sem qualquer curiosidade), foi só um pormenor entre outros avulsos, num post que pretendia ser um intervalo minimamente cómico.

 

Seja como for, reflecte o meu gosto actual, sabendo de antemão que os versos são sempre mais do que apenas sintaxe. Esse pequeno desabafo surgiu-me há umas semanas ao buscar no google “poésie française contemporaine”. Encontrei de tudo, claro (sugestão: um sítio que me pareceu decente chamado “Poezibao”), sendo a maior parte horrivelmente “linear”. Algumas frases partidas minhas, de há 4 ou 5 anos, provocam-me a mesma sensação desagradável.

 

Referiste que assim, por uma questão de menor esforço, era mais fácil. Mas quase tudo neste mundo de comunicação e informação já é demasiado acessível. A linguagem não tem de ser nivelada por baixo, ainda menos por aqueles que lêem e escrevem versos, duas actividades dignas de marginais hoje em dia.

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Indícios?, por demais

um tremendo cansaço

de coisas feias, e daí

sons, diversos traços

caracteres alguns

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Demasiados. Não cabem aqui. É tudo gente discursivamente feia. Acendendo a TV ou ouvindo quem fora dela reproduz agendas mediáticas, entre o vómito e o tédio a lista tornar-se-ia insuportavelmente longa.


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