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por JQ, em 24.02.14

Não é que seja fácil esquecer caras, expressões faciais e, menos ainda, impressões de inúmeras caras e expressões faciais que fui recolhendo ao longo de tanto tempo. Exceptuando alguns períodos de imperfeito vácuo durante a infância, consigo recordar, à escala do pixel mais mínimo, a diversidade expressiva de quase todos, que, em mim, deixaram marcas bastantes de um sinal «mais». A maior parte deles e delas repousa, incólume, no fundo de mim e desse meu espelho possível: a primeira coluna à esquerda nos alicerces deste blog.

 

Confissão algo ridícula: em momentos de maior hesitação, durante encruzilhadas pessoais, chego a perguntar “O que faria X nesta circunstância? E T, o que diria? Quanto a Z, tenho quase a certeza de que…”, o que, longe de qualquer dúvida, talvez explique por que raio, diante de quem já me não cruzo há meses ou anos, o nível de comunicação atingido se assemelha a tê-los encontrado no dia anterior. Talvez, do outro lado, isto soe meio estranho, do género “Este gajo, apesar da troca de telemóveis e endereços de email, quase nunca diz nada e quando o faz, parece não haver qualquer distância entre nós”.

 

É, em momentos assim, que evito confessar a imensa dificuldade de entender a existência de talvez uma dúzia de pessoas que, faça eu o que fizer ou deixe de fazer, continua a gostar de mim. Esse calor é-me extremamente confortável, claro. Um frio maior reside em desconfiar donde essa minha incompreensão advém (dos tais períodos de vácuo durante a infância?). E, no entanto, apesar de não conseguir praticá-la, sei, à escala de um milímetro de pele, que a partilha das fragilidades mais íntimas costuma servir de betão às amizades mais duradoiras.

 

Ainda ontem queimei mais algumas pestanas na leitura de “How We Became Posthuman: Virtual Bodies in Cybernetics, Literature and Informatics”. Entre tanto que a autora, N. Katherine Hayles, ali vai dizendo, embati num conceito subjacente - “social skills” -, que me permitiu descobrir que o erro reside sobretudo em mim. Em vez de entender essa expressão como “talentos para socializar”, traduzi-a, no imediato, como “habilidades sociais”, ideia, em si, plena de uma negatividade óbvia.

 

Bem que tentei, entre os meus vinte e os quarenta anos, aprender a socializar. Antes e depois disso, nunca me senti inteiro em trabalhos colectivos, mas fiz o que pude. Até aprendi o que não devia, perdendo um horror de tempo com gente pré-cartesiana, i.e., desprovida de um mínimo de lógica e bom-senso. Isso não obsta a que, ainda hoje, diante de pessoas que o trabalho actual me obriga a conhecer durante breves minutos ou longas horas, consiga comunicar o que é preciso, resolvendo sombras de litígios sem dificuldades de maior.

 

O problema tem recaído no tempo chamado “livre”. Ao fim de uma dezena de anos em Lisboa, perdi a curiosidade em conhecer pessoas. Sendo natural, não deixa de ser pavorosa esta capacidade humana de todos, mais tarde ou mais cedo, acabarmos por desiludir os outros. Daí, creio, este meu receio urbano (suburbano, rural até?) em conhecer alguém “demasiado bem”. Mas adiante, que atrás e em frente, vem sempre alguém capaz de surpresas e, entre elas, sentado esperando vou, um saudável mínimo de sinais «mais».

Autoria e outros dados (tags, etc)



Alguns riscos


Indícios?, por demais

um tremendo cansaço

de coisas feias, e daí

sons, diversos traços

caracteres alguns

de um rasto só


Algum tempo:


2017 Janeiro 2016 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho Maio Abril Março Fevereiro Janeiro ; 2015 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho Maio Abril Março Fevereiro Janeiro ; 2014 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho Maio Abril Março Fevereiro Janeiro; 2013 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho Maio Abril Março Fevereiro Janeiro; 2012 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho


Junho 2006/Junho 2012

(arquivos não acessíveis

via Google Chrome)


Algumas pessoas:


T ; José Carvalho da Costa, Francisco Q ; Alcino V, Vitor P ; José Carlos T, Fernando C, Eduardo F ; Paulo V, "Suf", Zé Manel, Miguel D, S, Isabel, Nancy ; Zé T, Marcelo, Faria, Eliana ; Isabel ; Ana C ; Paula, Carlos, Luís, Pedro, Sofia, Pli ; Miguel B ; professores Manuel João, Rogério, Fátima Marinho, Carlos Reis, Isabel Almeida, Paula Morão, Ivo Castro, Rita Veloso, Diana Almeida


Outros que, no exacto antípoda dos anteriores, despertam o pior de mim:


Demasiados. Não cabem aqui. É tudo gente discursivamente feia. Acendendo a TV ou ouvindo quem fora dela reproduz agendas mediáticas, entre o vómito e o tédio a lista tornar-se-ia insuportavelmente longa.


Uma chave, mais um chavão? A cultura popular do início deste séc. XXI fede !


joseqcarvalho@sapo.pt


Alguns nomes:


José Afonso ; 13th Floor Elevators, The Monks, The Sonics, The Doors, Jimi Hendrix, The Stooges, Velvet Underground, Love / Arthur Lee, Pink Floyd (1967-1972), Can, Soft Machine, King Crimson, Roxy Music; Nick Drake, Lou Reed, John Cale, Neil Young, Joni Mitchell, Led Zeppelin, Frank Zappa ; Lincoln Chase, Curtis Mayfield, Sly & The Family Stone ; The Clash, Joy Division, The Fall, Echo & The Bunnymen ; Ramones, Pere Ubu, Talking Heads, The Gun Club, Sonic Youth, Pixies, Radiohead, Tindersticks, Divine Comedy, Cornelius, Portishead, Beirut, Yo La Tengo, The Magnetic Fields, Smog / Bill Callahan, Lambchop, Califone, My Brightest Diamond, Tuneyards ; Arthur Russell, David Sylvian, Brian Eno, Scott Walker, Tom Zé, Nick Cave ; The Lounge Lizards / John Lurie, Blurt / Ted Milton, Bill Evans, Chet Baker, John Coltrane, Jimmy Smith ; Linton Kwesi Johnson, Lee "Scratch" Perry ; Jacques Brel, Tom Waits, Amália Rodrigues ; Nils Frahm, Peter Broderick, Greg Haines, Hauschka ; Franz Schubert, Franz Liszt, Eric Satie, Igor Stravinsky, György Ligeti ; Boris Berezovsky, Gina Bachauer, Ivo Pogorelich, Jascha Heifetz, David Oistrakh, Daniil Trifonov


Outros nomes:


Agustina Bessa Luís, Anna Akhmatova, António Franco Alexandre, Armando Silva Carvalho, Bob Dylan, Boris Vian, Carl Sagan, Cole Porter, Daniil Kharms, Evgeni Evtuchenko, Fernando Pessoa, George Steiner, Gonçalo M. Tavares, Guy Debord, Hans Magnus Enzensberger, Harold Bloom, Heiner Müller, João MIguel Fernandes Jorge, John Mateer, John McDowell, Jorge de Sena, José Afonso, Jürgen Habermas, Kevin Davies, Kurt Vonnegut Jr., Lêdo Ivo, Leonard Cohen, Luís de Camões, Luís Quintais, Marcel Proust, Marina Tzvietaieva, Mário Cesariny, Noam Chomsky, Ossip Mandelstam, Ray Brassier, Raymond Williams, Roland Barthes, Sá de Miranda, Safo, Sergei Yessinin, Shakespeare, Sofia M. B. Andresen, Ted Benton, Vitorino Nemésio, Vladimir Maiakovski, Wallace Stevens, Walter Benjamin, W.H. Auden, Wislawa Szymborska, Zbigniew Herbert, Zygmunt Bauman


Algum som & imagem:


Avec élégance

Crazy clown time

Danse infernale

Dark waters

Der himmel über berlin

Forever dolphin love

For Nam June Paik

Gridlocks

Happy ending

Lilac Wine

L'heure exquise

LoopLoop

Materials

Megalomania

Metachaos

Nascent

Orphée

Sailing days

Soliloquy about...

Solipsist

Sorry, I'm late

Submerged

Surface

Their Lullaby

The raw shark texts

Urban abstract

Unter