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por JQ, em 19.03.14

Parece que existem muitas pessoas que simplesmente

procuram  uma única resposta, seja ela qual for, assim

evitando o fardo de manter, em simultâneo na sua mente,

duas hipóteses que aparentam excluir-se mutuamente.

 

Carl Sagan, Brocas’s Brain, 1979

 

 

Cão não tenho, mas se tivesse mudar-lhe-ia frequentemente o nome, só porque li algures, numa fonte para mim ainda fidedigna (cf. qualquer livro do autor da epígrafe), que as dúvidas sobre a própria identidade, sob o contrapeso de algum bom-senso, propiciam uma espécie de adubo na percepção deste mundo, da consciência de si e, daí, da noção do Outro.

 

Falo de cães, de um canídeo hipotético. Por exemplo, nuns dias chamar-lhe-ia Bobby, como metade das ruidosas feras que me assustavam na infância. Noutros, em que veros instintos de malvadez me levassem a recitar-lhe versos gauleses, talvez Thierry. Piruças seria outra possibilidade, para quando o chamado melhor amigo do homem desatasse a perseguir a própria cauda. Noutros, ainda, rendido à inevitabilidade de um cão quase nunca conseguir igualar a elegância de um felídeo, dir-lhe-ia:   

 

- Sabes, Brutus? Lembro-me de, ainda jovem, ter lido uma epígrafe em “Brocas’s Brain”, de Carl Sagan (definitivamente, um dos seres simultaneamente mais humanos e mais sábios que viveu no passado século), segundo a qual Einstein terá dito numa entrevista: “O destino, para me castigar pelo meu desprezo pela autoridade, transformou-me numa autoridade”. Isto serviria perfeitamente para uma analogia parva, do género: O destino, para castigar o meu menosprezo pelos cães, levou-me a ter um blog, onde posso ladrar e morder as canelas do mundo, quando bem me apetece. Mas não é por aí, ladrando, que quero ir.

 

Ressalvando os imensos anos-sombra que me separam do saber de Einstein, também eu me sinto vítima – não do destino, vá de retro! –, mas de mim mesmo. Também eu, que sempre acreditei que alguma conflitualidade entre classes e, esporadicamente, entre indivíduos e dentro de cada um, poderia ser benéfica para o bem comum, dou por mim a ser pago para dirimir contendas. E dirimir até soa bem, mas é pouco útil num tempo que nos empurra para dentro de cercas, para rebanhos, mesmo de ovelhas por dentro já tresmalhadas, que se mantêm próximas apenas por inércia, ausência de alternativas ou desejo surdo de um abanão redentor.

 

- Béu! – ladrou Brutus.

- Béu, Bobby?! Ça veut dire quoi, Thierry? Adiante, Piruças. Um dia destes, Brutus, vi-me a servir de pêndulo entre um sujeito da minha idade – aspecto bem mais distinto: écharpe por dentro do colarinho, ar e sapatos reluzentes, ilustrados com um par de berloques pimba – e um reformado, com sessenta e muitos anos, demasiado magro, pijama coçado, olhar, voz e outros espelhos de uma derrota evidente: T0 de renda camarária, atafulhado de nada, num vazio desarrumo condizente com o exílio num dos bairros sociais mais degradados de Lisboa. O seu único pecado vísivel? Ter sido fiador de um filho ausente em parte incerta.

 

No caminho até lá, fui sondando o temperamento sócio-político do primeiro, o distinto senhor com écharpe em volta do pescoço. Evitando, sem êxito, qualquer preconceito estético diante de tal indício de militante mau gosto, concluí o seu retrato ao ouvir dele: “Considero-me neoliberal e católico”. “Ah, bom”, respondi, calando o comentário: “Chiça! Haverá duas crenças mais incompatíveis?”. Adiante.

 

Já no local, no tal T0 absolutamente miserável, depois de assistir às suas insensatas tentativas de pressionar quem nada tinha a dar o que absolutamente não existia, acabei por perguntar-lhe: ”Você vai à missa ao Domingo, não vai?”. Apesar da écharpe pimba em torno da sua alma difusa, a pequena hiena esboçou um sorriso envergonhado, demonstrando alguma inteligência, esquecendo, por um momento, a sua condição de serviçal dos algozes que vão empobrecendo milhões por esse mundo fora. 

Autoria e outros dados (tags, etc)



Alguns riscos


Indícios?, por demais

um tremendo cansaço

de coisas feias, e daí

sons, diversos traços

caracteres alguns

de um rasto só


Algum tempo:


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Junho 2006/Junho 2012

(arquivos não acessíveis

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Algumas pessoas:


T ; José Carvalho da Costa, Francisco Q ; Alcino V, Vitor P ; José Carlos T, Fernando C, Eduardo F ; Paulo V, "Suf", Zé Manel, Miguel D, S, Isabel, Nancy ; Zé T, Marcelo, Faria, Eliana ; Isabel ; Ana C ; Paula, Carlos, Luís, Pedro, Sofia, Pli ; Miguel B ; professores Manuel João, Rogério, Fátima Marinho, Carlos Reis, Isabel Almeida, Paula Morão, Ivo Castro, Rita Veloso, Diana Almeida


Outros que, no exacto antípoda dos anteriores, despertam o pior de mim:


Demasiados. Não cabem aqui. É tudo gente discursivamente feia. Acendendo a TV ou ouvindo quem fora dela reproduz agendas mediáticas, entre o vómito e o tédio a lista tornar-se-ia insuportavelmente longa.


Uma chave, mais um chavão? A cultura popular do início deste séc. XXI fede !


joseqcarvalho@sapo.pt


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