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por JQ, em 11.11.14

7 do 11, 2014

(21º aniversário de evento íntimo já não comemorável)

Rua das Janelas Verdes, Lisboa

 

Num pequeno jardim, contíguo ao Museu N. de Arte Antiga, sento-me numa ponta do único banco ainda livre. Carrego um livro bem pesado, um par de óculos de ler ao perto, filtros e mortalhas, sempre mortalhas, algum tabaco por enrolar e o esquecimento do isqueiro. No outro extremo do banco, reparo numa mulher jovem, de olhos fixos no chão, com o resto do seu corpo numa expressão talvez próxima de uma dor intensa. Hesito, como sempre diante desconhecidos, mas os pulmões falam mais alto: “Não queria incomodá-la, mas por acaso não tem um is...?” Nem pude acabar a frase. A sua resposta? “Está incomodar-me, sim. E se tivesse um não lho daria!”.

 

Bom, frente ao Tejo ainda sobram outras árvores, talvez uma outra gente mais generosa. Subo um pouco para Leste, compro um isqueiro num quiosque qualquer, sento-me noutro jardim eventualmente mais feliz e recomeço a ler. Quanto mais próximo da 594ª página final dos Diários de Al Berto a leitura tornando se vai cada vez mais difícil. Cada vez menos literárias, as anotações sobre a progressão da sua doença, que então, qual Voldemort social, “não ousava dizer o seu nome”, vão-se avolumando na medida inversa do meu interesse. Justifico?

 

Talvez pouco tenha a ver com o meu tipo de sangue (o mais egoísta de todos, vulgarmente conhecido como “receptor universal”, por poder receber transfusões de todos os outros e apenas e só servir para doar o meu ao meu próprio “tipo”). Não sei, não posso ter a certeza disso, mas desde sempre me senti quase doente quando tive de entrar em hospitais como visitante, desde sempre recordo a invenção de desculpas quase impossíveis para evitar casamentos e funerais, desde sempre costumo ficar quase deprimido ao ouvir lamentos do umbigo de outros, desde que não amigos de longa data. Desses tão poucos, mesmo parecendo que não, o meu pensar persiste vizinho entre este par de orelhas algo desmesuradas.

 

Por outro lado, certo é que comprei esse livro por ter entrado num sítio que os vende e nunca ter saído de lugares assim sem comprar fosse o que fosse. Neste acaso, apesar da minha costumeira aversão a discursos do “eu”, entre a diversidade existente e as diversas idades da minha escolha, “Al Berto – Diários”, colectados de uma forma absolutamente sóbria e, enquanto mero leitor, aparentemente correcta e rigorosa por Golghona Angel, foi a que me pareceu mais adequada ao momento.

 

Aparte obviamente desnecessário: nunca quis e desconfio que nunca vou querer saber de bastidores nem da literatura nem de outra arte qualquer. Preconceito infantil? Claro que sim. Suspeita mais adulta? Uma suave impressão de que quem melhor investe no marketing de si próprio talvez devesse focar a sua atenção menos no umbigo e mais na sua obra.

 

Passe alguma “choraminguice” neles inerente (diversão: há uns anos, uma das minhas mais queridas professoras da FLUL, ao ouvir-me reduzir a poesia de António Nobre a esse substantivo demasiado “pop”, corrigiu-o de imediato, traduzindo-o por “sentimentalidade”…), o facto é que nos versos de Al Berto quase sempre entrevi uma dimensão, talvez quase universal, bem maior do que a sempre duvidosa “modesta portugalidade” dos seus contemporâneos.

 

Mesmo sabendo que, dentro de cada um, o isolamento não depende exactamente da quantidade de pessoas que frequenta o “nosso lugar físico ou virtual”, desconfio imenso das suas inúmeras confissões de solidão e distância relativamente às capelas literárias e artísticas de Lisboa em face das inúmeras anotações sobre encontros, jantares e correspondência trocada com inúmeros nomes sonantes das capelas literárias e artísticas da Lisboa de então. Bom, se tal descrença já se revela inútil com os vivos, que direito terei eu ao exigir maior perfeição dos mortos? Adiante.

 

Um exemplo na revessa dos parágrafos anteriores? Mesmo enquanto protagonista e espectador do seu corpo que decaía, Al Berto, perto do fim, ainda consegue (ba)lançar algum brilho entre a doença e a escrita mais literária, num registo bem mais substante que o apenas diarístico:

 

[…]

Dia 26 Dez.[1996]

Comprar Big Bill Bronxy e Muddy Waters. Blues, muitos blues, nestes dias do vazio.

- Amanhã – 8.30 – Hospital dos Capuchos.

Análises + dia 27

[…]

Dia 30 – consulta e quimioterapia (2ª vez)

- a 1º sessão foi dia 10 - Dez -

 

Dia 27 Dez.

aviões levantam voo e sobrevoam o bairro onde vivo – ao lado da mesquita – e penso sempre que um destes aviões que sulcam o vazio da noite vai levar as dores que tenho e não me deixam sossegar. Mas os aviões afastam-se e o ronco perde-se ao longe. A dor permanece e eu vejo as horas avançarem, exactamente como o avião avança para o seu destino – com a diferença que no fim destas horas não há destino nem surpresa – apenas mais dor. E recomeço. Os aviões levantaram voo e passam por cima do bairro onde vivo, etc. etc.

*

Saudades do mar. Saudades de tocar o mar.

*

[…]

*

Os poemas adoeceram (?)

*

Lá fui às 7.30 a caminho do hospital, quase sem dormir, para as análises.

[...]

Autoria e outros dados (tags, etc)



Alguns riscos


Indícios?, por demais

um tremendo cansaço

de coisas feias, e daí

sons, diversos traços

caracteres alguns

de um rasto só


Algum tempo:


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Junho 2006/Junho 2012

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Outros que, no exacto antípoda dos anteriores, despertam o pior de mim:


Demasiados. Não cabem aqui. É tudo gente discursivamente feia. Acendendo a TV ou ouvindo quem fora dela reproduz agendas mediáticas, entre o vómito e o tédio a lista tornar-se-ia insuportavelmente longa.


Uma chave, mais um chavão? A cultura popular do início deste séc. XXI fede !


joseqcarvalho@sapo.pt


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