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Uma fábula

por JQ, em 17.02.15

Os tubarões (ou, se preferirem, Elasmobranchii Chondrichthyes Selachimorpha Carcharhinus) costumam viver nas águas mais profundas e escuras. Para eles, é Inverno quase todo o ano. Quando decidem ir apanhar ar à superfície, vão em alcateia. Sem destino à partida, mal os semáforos mudam para o vermelho, ninguém consegue pará-los, transformando o passeio assim a modos que num banquete de vampiros.

 

Neste entre tampouco, uma equipa de idiotas, deveras dedicados ao estudo do seu comportamento, tem vindo a reparar que, por mais frequentes que sejam esses banquetes, a satisfação pós-refeição não parece ser a mesma de há uns anos. Poder-se-á quase concluir que os tubarões não apreciam os açúcares e as hormonas de aviário, cada vez mais presentes nos mais diversos elos da sua cadeia alimentar. Bom, no seguinte, desconsidere, quem puder, a evidente falta de rigor científico:

 

Uma vez, conheci um tubarão da sub-classe Carcharhinus Leucas (se não souberem, perguntem à wikipedia:), sem nada a ver com a sua espécie. Nem sequer participava nas tais excursões vampíricas, pois quase todo ele era feito de letras, sons e outros signos que tais.

 

Nos semáforos, não optava só pelo vermelho. Defeito/feitio dele? Gostava de todas as cores. Desse modo, raramente dava trabalho ao seu aparelho digestivo e tudo isso fazia com que não precisasse daqueles peixinhos parasitas, que se abanam entre os dentes dos outros tubarões, retirando com capricho os detritos que sempre restam depois do festim.

 

Noutra vez, este tubarão conheceu uma tubaroa que também não gostava de ter muitos detritos entre os dentes e, entrementes, afastaram-se do rebanho da sua classe. Pouco a pouco, cada vez mais, em direcção ao além da superfície das coisas, onde passavam o tempo a agarrar o sol e a nadar. Sobretudo a nadar. Sem quase nada sob ou sobre. A nadar sobre tudo, talvez.

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Alguns riscos


Indícios?, por demais

um tremendo cansaço

de coisas feias, e daí

sons, diversos traços

caracteres alguns

de um rasto só


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Demasiados. Não cabem aqui. É tudo gente discursivamente feia. Acendendo a TV ou ouvindo quem fora dela reproduz agendas mediáticas, entre o vómito e o tédio a lista tornar-se-ia insuportavelmente longa.


Uma chave, mais um chavão? A cultura popular do início deste séc. XXI fede !


joseqcarvalho@sapo.pt


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