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por JQ, em 28.04.13

 

L'Europe, Noir Désir, 2001

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por JQ, em 28.04.13

[…]

1ª Voz

Este tempo está feito um domingo monstruoso

2ª Voz

É dos que levaram do cavalo as mãos

3ª Voz

Levaram os sonhos para casa

1ª Voz

Fazem de mortos para escapar aos vivos

2ª Voz

Fazem de vivos e fazem mal

3ª Voz

Entretanto        no fundo de olhos inteligentes

agitam-se oceanos de saliva

1ª Voz

Um pequeno espaço no tempo

de que os pilotos gostam

2ª Voz

O interior do meu navio

3ª Voz

O interior do meu navio a branco

1ª Voz

O interior do meu navio a branco

são estas avenidas sem retrocesso

onde o sangue pagou o seu tributo ao esqualo

e onde tu não estás meu triunfo e meu espasmo

de corpo livre a ver o vento aterrar

2ª Voz

Agora já passou        agora basta

3ª Voz

Agora regressar ao interior do navio

1ª Voz

Agora vêm aí pedir pedir-nos a verdade

como quem pede troco do planeta para as dez

dez e meia onze horas da manhã

2ª Voz

A verdade       eu explico

3ª Voz

Arcturus e Astralis egípcios-alemães

passam neste momento na direcção norte-norte

a terra vai tremer e precipitar-se

1ª Voz

No donde nunca saiu embora se mova

2ª Voz

E com ela a verdade

3ª Voz

Verdade azul verdade branca dos rios

1ª Voz

Verdade em linha recta dos olhos dos namorados

2ª Voz

Verdade cor de muro

3ª Voz

Cor de cinema pobre

1ª Voz

E depois cor de fogo verdade escura cor de homem

2ª Voz

E sabem para que são estas verdades todas

e todos este livros de moradas?

3ª Voz

São para glorificar o corpo a corpo

o boca a boca o calça a calça e as mãos nas mãos

perceberam?

1ª Voz

Não        não perceberam

2ª Voz

São milhares de cabeças separadas do tronco

mantidas por filamento junto à nuca

(breve pausa)

3ª Voz

Até aqui nada de extraordinário

[…]

 

excerto de Inquérito, Mário Cesariny

(em 19 projectos de prémio Aldonso Ortigão

seguido de Poemas de Londres, 1971)

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por JQ, em 28.04.13

 

Morremos a Rir, Rui Reininho, 2008

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por JQ, em 28.04.13

[…]

E todas as bibliotecas inundadas perdidas incendiadas

todas as quimeras onde houve gente e de que não

resta pedra sobre pedra

rosto ao lado de um rosto num portal antigo

porisso a tua Gare Ilimitada a que arrancaste por-

tas e telhado para homens e mulheres pode-

rem sempre partir

e os infindáveis baralhos de cartas onde a cada

momento interrogasse o destino

ó viera das silvas dos teus cabelos

presos à dança da pedra e do ar

 

 

«A este propósito lembraremos o mito de uma idade paradisíaca onde os seres humanos podiam facilmente subir ao céu e estabelecer relações familiares com os deuses. O simbolismo cosmológico da casa e a experiência xamânica da ascensão confirmam, sob outro aspecto, este mito arcaico. Eis como: depois da interrupção das comunicações fáceis que, no início dos tempos, havia entre o céu e a terra, certos seres privilegiados (e em primeiro lugar Vieira da Silva) continuam a poder efectuar a ligação dos planos superior e inferior. Da mesma maneira, os xamãs têm o poder de voar e de aceder ao céu através da «abertura central», enquanto para outros mortais essa abertura serve unicamente para a transmissão de oferendas» Mircea Eliade / Mário Cesariny

 

 

Por isso a tua Cidade dos Gatos onde Rimbaud terá

sempre o seu quarto

e onde Cecília a Doce vai começar a abrir

os seus braços de vento misturado ao vento

porisso as tuas mãos traçando linhas à passagem

contínua do navio

que fantasticamente flutua a teu lado

e o vale      o vale imenso aberto e branco

[…]

 

 

excerto de Ode a Outros e a Maria Helena Vieira da Silva, Mário Cesariny

(em 19 projectos de prémio Aldonso Ortigão seguido de Poemas de Londres, 1971)

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Portugal em Abril de 2013

por JQ, em 25.04.13


 

I found my April dream in Portugal with you / When we discovered romance like we never knew / My head was in the clouds, my heart went crazy too / And madly I said "I love you" / Too soon I heard you say / "This dream is for a day" / That's Portugal and love in April / And when the showers fell / Those tears I know so well / They told me it was Spring fooling me […]

 

April in Portugal, letra de Jimmy Kennedy (versão para gringos de Coimbra, de José Galhardo e Raul Ferrão, 1947)

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por JQ, em 25.04.13

I - Uma delegação de cidadãos composta de cinco membros descerá de dois táxis Palhinhas e atravessará o Rossio em estado de nudez. Após a prisão grandes manifestações de regozijo podendo haver lapidações em série.

II - Professor catedrático, preferência escritor, é empurrado nu para dentro de um eléctrico. Alocução à província. Dispersão.

III - Choque de um aeróstato monstro com os dois elevadores de Santa Justa previamente dispostos na passerelle. Evocação dos mortos da outra guerra. Uma senhora jovem. Dispersão.

IV - Duas delegações de cidadãos no total de dez membros descerão de dois táxis Palhinhas para atravessar o Rossio em estado de nudez. Após a prisão abertura de um parque de rebolagem. Mais lapidações.

V - Às cinco da manhã: ruptura de todas as negociações e preparação automática de novos cortejos.

 

 

Rebelião, Mário Cesariny, 1947

(em 19 projectos de prémio Aldonso Ortigão

seguido de Poemas de Londres, 1971)

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por JQ, em 25.04.13

 

Fantasmas, João Paulo Esteves da Silva (Memórias de Quem, 2007)

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por JQ, em 25.04.13

[…]

Sonho um barco em naufrágio e um mar tão fundo que a descida ao abismo é lentidão sem fim. Os afogados, no castelo da proa, ou subidos aos mastros, interrogam sem resultado aquele novo horizonte. Alguns, mais animosos, experimentam lançar-se desde o mastro grande para o caos sereno e azul que envolve tudo. Mas o gesto é inútil: permanecem pairando, o corpo em cruz, até que voltam ao ponto de partida. Outros propõem remar. E entretanto descem lentamente o abismo.

 

Recomeço a voar, lançando-me do alto da Rua Barata Salgueiro. Digo: «recomeço» porque no meu sonho há lembrança nítida de incursões semelhantes iniciadas sempre nesta rua. Entro no espaço abstracto, sem imagens, que será para o homem o voo puro. Os meus braços abertos são os reguladores da direcção.

 

Desço, quase a razar o solo, sobre a Avenida da República, em direcção ao Saldanha, que oferece o aspecto habitual de um fim de tarde de Verão. Do lado da Avenida Fontes Pereira de Melo, voando baixo como eu, uma mulher magnífica, solene, vestindo um longo traje de renda negra cujo ondear continua no espaço, Reunimo-nos sem trocar palavra, fitando-nos apenas, e, sem desvio na direcção comum, traçamos lentamente dois círculos concêntricos à estátua de bronze em baixo, afligida de grande circulação automóvel.

 

 

no final de Passagem dos Sonhos, Mário Cesariny

(em 19 projectos de prémio Aldonso Ortigão

seguido de Poemas de Londres, 1971)

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por JQ, em 25.04.13

 

Baile dos Câretos, Pedro Caldeira Cabral (Memórias da Guitarra Portuguesa, 2000)

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por JQ, em 23.04.13

As aias agem por elogio sob a viuvez do talco, centro de uma vela branca como um dorso, larga como um farol de vastos estremecimentos. Acusados de aspirar o ar puro dos montes, expiram os maquinistas. Há-os a pé e a cavalo, há-os com passo de subúrbio, há-os já sem vida sobre as fogueiras. Um homem ergue lentamente o braço, deixa-o cair em cima da cabeça. Está nisso desde a infância, uma organização comercial leva-o às feiras de Maio, seminu. O cataclismo sai-lhe pelas esporas. Embrulhadas demais, duas palavras irreversíveis quebram-me o aparo pouco habituado a estes seres. O ar gira uma chave ao desdobrar a mão que lhe aponta o país que aparta os movimentos. «Ungarito, digo eu, vê com que arte o amor retoma o brilho das cidades cantábricas!» […]

 

 

no início de Cabala Fonética, Mário Cesariny

(em 19 projectos de prémio Aldonso Ortigão

seguido de Poemas de Londres, 1971)

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por JQ, em 23.04.13

 

excerto de um doc sobre a Orchesta de Instrumentos Reciclados de Cateura (Paraguai)

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por JQ, em 23.04.13

2013, Domingo, dia muito horizontal. Foi. Podia perfeitamente começar por dizer, como de resto vou fazer, que pouco depois de acordar o meu olhar esbarrou numa caçarola onde dormiam para sempre umas dezenas de bichos armados de casca e pinças alaranjadas. Foi-me sugerido que os cozinhasse daí a um par de horas acompanhados de tofu (- Tó quê?). Fosse pelo tofu, que já foi vivo grão, fosse pela dieta dos camarões, que como nós vivem no fundo dos mares, devorando cadáveres dos vizinhos, decidi esperar que a fome surgisse para distrair o gastronómico remorso de subúrbio. Peguei num maço de papel prensado (Gramáticas da Criação, de Steiner) decerto esquecido de que um dia, como nós, foi eucalipto. Janela fora, andares mais abaixo, entre as fomes mais diversas ia crescendo a mais básica.

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Alguns riscos


Indícios?, por demais

um tremendo cansaço

de coisas feias, e daí

sons, diversos traços

caracteres alguns

de um rasto só


Algum tempo:


2017 Janeiro 2016 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho Maio Abril Março Fevereiro Janeiro ; 2015 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho Maio Abril Março Fevereiro Janeiro ; 2014 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho Maio Abril Março Fevereiro Janeiro; 2013 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho Maio Abril Março Fevereiro Janeiro; 2012 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho


Junho 2006/Junho 2012

(arquivos não acessíveis

via Google Chrome)


Algumas pessoas:


T ; José Carvalho da Costa, Francisco Q ; Alcino V, Vitor P ; José Carlos T, Fernando C, Eduardo F ; Paulo V, "Suf", Zé Manel, Miguel D, S, Isabel, Nancy ; Zé T, Marcelo, Faria, Eliana ; Isabel ; Ana C ; Paula, Carlos, Luís, Pedro, Sofia, Pli ; Miguel B ; professores Manuel João, Rogério, Fátima Marinho, Carlos Reis, Isabel Almeida, Paula Morão, Ivo Castro, Rita Veloso, Diana Almeida


Outros que, no exacto antípoda dos anteriores, despertam o pior de mim:


Demasiados. Não cabem aqui. É tudo gente discursivamente feia. Acendendo a TV ou ouvindo quem fora dela reproduz agendas mediáticas, entre o vómito e o tédio a lista tornar-se-ia insuportavelmente longa.


Uma chave, mais um chavão? A cultura popular do início deste séc. XXI fede !


joseqcarvalho@sapo.pt


Alguns nomes:


José Afonso ; 13th Floor Elevators, The Monks, The Sonics, The Doors, Jimi Hendrix, The Stooges, Velvet Underground, Love / Arthur Lee, Pink Floyd (1967-1972), Can, Soft Machine, King Crimson, Roxy Music; Nick Drake, Lou Reed, John Cale, Neil Young, Joni Mitchell, Led Zeppelin, Frank Zappa ; Lincoln Chase, Curtis Mayfield, Sly & The Family Stone ; The Clash, Joy Division, The Fall, Echo & The Bunnymen ; Ramones, Pere Ubu, Talking Heads, The Gun Club, Sonic Youth, Pixies, Radiohead, Tindersticks, Divine Comedy, Cornelius, Portishead, Beirut, Yo La Tengo, The Magnetic Fields, Smog / Bill Callahan, Lambchop, Califone, My Brightest Diamond, Tuneyards ; Arthur Russell, David Sylvian, Brian Eno, Scott Walker, Tom Zé, Nick Cave ; The Lounge Lizards / John Lurie, Blurt / Ted Milton, Bill Evans, Chet Baker, John Coltrane, Jimmy Smith ; Linton Kwesi Johnson, Lee "Scratch" Perry ; Jacques Brel, Tom Waits, Amália Rodrigues ; Nils Frahm, Peter Broderick, Greg Haines, Hauschka ; Franz Schubert, Franz Liszt, Eric Satie, Igor Stravinsky, György Ligeti ; Boris Berezovsky, Gina Bachauer, Ivo Pogorelich, Jascha Heifetz, David Oistrakh, Daniil Trifonov


Outros nomes:


Agustina Bessa Luís, Anna Akhmatova, António Franco Alexandre, Armando Silva Carvalho, Bob Dylan, Boris Vian, Carl Sagan, Cole Porter, Daniil Kharms, Evgeni Evtuchenko, Fernando Pessoa, George Steiner, Gonçalo M. Tavares, Guy Debord, Hans Magnus Enzensberger, Harold Bloom, Heiner Müller, João MIguel Fernandes Jorge, John Mateer, John McDowell, Jorge de Sena, José Afonso, Jürgen Habermas, Kevin Davies, Kurt Vonnegut Jr., Lêdo Ivo, Leonard Cohen, Luís de Camões, Luís Quintais, Marcel Proust, Marina Tzvietaieva, Mário Cesariny, Noam Chomsky, Ossip Mandelstam, Ray Brassier, Raymond Williams, Roland Barthes, Sá de Miranda, Safo, Sergei Yessinin, Shakespeare, Sofia M. B. Andresen, Ted Benton, Vitorino Nemésio, Vladimir Maiakovski, Wallace Stevens, Walter Benjamin, W.H. Auden, Wislawa Szymborska, Zbigniew Herbert, Zygmunt Bauman


Algum som & imagem:


Avec élégance

Crazy clown time

Danse infernale

Dark waters

Der himmel über berlin

Forever dolphin love

For Nam June Paik

Gridlocks

Happy ending

Lilac Wine

L'heure exquise

LoopLoop

Materials

Megalomania

Metachaos

Nascent

Orphée

Sailing days

Soliloquy about...

Solipsist

Sorry, I'm late

Submerged

Surface

Their Lullaby

The raw shark texts

Urban abstract

Unter