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por JQ, em 29.06.15

Quatro horas da tarde.

O poeta sai de casa com uma aranha nos cabelos.

Tem febre. Arde.

E a falta de cigarros faz-lhe os olhos mais belos.

 

Segue por esta, por aquela rua

sem pressa de chegar seja onde for.

Pára. Continua.

E olha a multidão, suavemente, com horror.

 

Entra no café.

Abre um livro fantástico, impossível.

Mas não lê.

Trabalha - numa música secreta, inaudível.

 

Pede um cigarro. Fuma.

Labaredas loucas saem-lhe da garganta.

Da bruma

espreita-o uma mulher nua, branca, branca.

 

Fuma mais. Outra vez.

E atira um braço decepado para a mesa.

Não pensa no fim do mês.

A noite é a sua única certeza.

 

Sai de novo para o mundo.

Fechada à chave a humanidade janta.

Livre, vagabundo

dói-lhe um sorriso nos lábios. Canta.

 

Sonâmbulo, magnífico

segue de esquina em esquina com um fantasma ao lado.

Um luar terrífico

vela o seu passo transtornado.

 

Seis da madrugada.

A luz do dia tenta apunhalá-lo de surpresa.

Defende-se à dentada

da vida proletária, aristocrática, burguesa.

 

Febre alta, violenta

e dois olhos terríveis, extraordinários, belos.

Fiel, atenta

a aranha leva-o para a cama arrastado pelos cabelos.

 

 

O Poeta em Lisboa, António José Forte (ed. 2003)

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por JQ, em 29.06.15

 Lisboa à Noite, por HPL, 2007 (música: Worry About You, Ivy)

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Um blogger em Lisboa

por JQ, em 29.06.15

O prosador (salvo disso seja) de blogues (sim, ainda com algum orgulho nisso) está a precisar de meias-solas, um couro qualquer nos pés e na alma. Nas últimas semanas, durante as horas roubadas a versos electrónicos e em papel, as quais (confessa sem nenhum assomo de orgulho), lhe pagam tecto, comida, livros e outros ócios, tem trabalhado cerca de 8 horas, percorrido dúzias de kms por dia. Ou seja, mais do que o dobro da sua média, a bem dizer, uma obscenidade que o faz soltar surdos impropérios contra a crescente e irracional obsessão estatística do seu ministério.

 

O prosador (salvo disso seja) de blogues (sim, ainda com algum orgulho nisso), tem-se sentido como aquelas personagens de romances de Graham Greene há muito lidos (no tempo das bibliotecas itinerantes da Gulbenkian), exilados na canícula de uma qualquer república das bananas da América Central, sempre limpando a testa, a suar enquanto secam ressuores, consumindo hectares de floresta em lenços agora de papel.

 

Ainda hoje, à deriva nos lumiares desertos do extremo norte de Lisboa (seria já Sintra, Loures, Santarém, ou quiçá Freixo de Carrapatosa?!), esgotados os kleenexes, arrancou um par de poemas-eucaliptos de um livro de renomado poeta presencista. A fronte agradeceu, mas nem isso tornou o seu âmago menos ausente.

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por JQ, em 22.06.15

 Senhora das Rosas, Sétima Legião, 1989

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De um tempo ausente

por JQ, em 22.06.15

Na introdutória pág. 6 da 1ª edição de "Poesia de António Maria Lisboa", ed. Assírio e Alvim, 1977, estabelecida pelo Sr. de Vasconcelos (Cesariny Mário, clário) pode ler-se:

 

Nota do Director da Colecção (E. M. de Melo e Castro): Por não ter sido consultado pelos editores Assírio e Alvim quanto à inclusão de POESIA DE ANTÓNIO MARIA LISBOA na colecção DOCUMENTA POÉTICA (que tem sido por mim dirigida, encomendando as Obras aos seus Autores e com eles discutindo livremente quanto a matérias e critérios), declino qualquer responsabilidade sobre o seu conteúdo, que, aliás, até hoje, 20 de Outubro de 1977, me não foi dado a conhecer, nem pelos Editores, nem pelo Autor da Obra.

 

Nota do Editor: o editor não subscreve parte das afirmações e acusações produzidas neste volume pelo responsável pela edição, Mário Cesariny de Vasconcelos.

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por JQ, em 18.06.15

 

 "Home", vídeo de Pedro Miguel (+ 2000 Light Years From Home, The Rolling Stones)

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por JQ, em 18.06.15

E vistas assim as coisas fragmentariamente é certo

e a custo na imensidão da desordem

a que terão de ser constantemente arrancadas

 

Eu falo somente dos relógios caídos, dos autocarros

Eu falo somente dos pés vermelhos

Eu falo... eu falo... eu falo...

 

Resulta isto dum olhar rápido sobre a cidade desconhecida

No vigésimo século as nuvens são árvores

e os pássaros mais pequenos grandes paquidermes

 

Ainda um céu marinho de agonia onde eu

sou um copo de aguardente francesa e tu

uma gaivota que passa rente ao barco que me leva

 

Sim, é verdade, os cabelos loiros

Então, meia-noite!

Senhora, se me dá licença, este dia acabou

 

 

colagem de excertos de 3 poemas de António Maria Lisboa

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Cortejo "histórico", em mais um império ostentando com orgulho as vergonhas da sua ambição

por JQ, em 15.06.15

 António Lopes Ribeiro / Leitão de Barros, 1947

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"No país no país no país..." (versos deveras políticos, ainda tão válidos desde o passado, n´é?)

por JQ, em 15.06.15

no país no país no país onde os homens

são só até ao joelho

e o joelho que bom é só até à ilharga

conto os meus dias tangerinas brancas

e vejo a noite Cadillac obsceno

a rondar os meus dias tangerinas brancas

para um passeio na estrada Cadillac obsceno

 

e no país no país e no país país

onde as lindas lindas raparigas são só até ao pescoço

e o pescoço que bom é só até ao artelho

ao passo que o artelho, de proporções mais nobres,

chega a atingir o cérebro e as flores da cabeça,

recordo os meus amores liames indestrutíveis

e vejo uma panóplia cidadã do mundo

a dormir nos meus braços liames indestrutíveis

para que eu escreva com ela, só até à ilharga,

a grande história do amor só até ao pescoço

 

e no país no país que engraçado no país

onde o poeta o poeta é só até à plume

e a plume que bom é só até ao fantasma

ao passo que o fantasma - ora aí está –

não é outro senão a divina criança (prometida)

uso os meus olhos grandes bons e abertos

e vejo a noite (on ne passe pas)

diz que grandeza de alma. Honestos porque.

Calafetagem por motivo de obras.

É relativamente queda de água

e já agora há muito não é doutra maneira

no país onde os homens são só até ao joelho

e o joelho que bom está tão barato

 

em “Discurso Sobre a Reabilitação do Real Quotidiano”

Cesariny, Mário (1956)

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por JQ, em 11.06.15

"Donos de Portugal", Jorge Costa, 2012

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O reverso das medalhas (algumas noções sempre ausentes nos "Dias de qualquer Raça")

por JQ, em 11.06.15

[…]

Que pena realmente o nosso excesso de mares

e o nosso realmente só querermos isso

que pena a praia abandonada às ondas

e a lua que não deu uma para a caixa

assim como fizemos nem os bichos quiseram

foram todos para a Suiça que é mais perto

mesmo do vácuo mais perto --- da morte branca mais limpos

(digo bichos decentes --- de vários metros de alto

porque ao cão e ao gato tanto se lhes dá)

A neve nos sapatos como uma barba

lembra-me o Gama dos livros de infância

Que chapéu ele usava!

Então aquela Índia começava assim?

E o mar que nós fizemos só para ser ondeado?

Crianças de piroca grande a remexer na trave do infinito

Luís de Sousa Luiz Vaz de Almada Luiz Pacheco

depois da praia surgia o terror

e depois do terror a destruição

Tudo o que aniquilámos porque parecia nosso sem testemunhas

e era jovem --- dúctil --- como um corpo nu

que esburacámos vivo só porque tínhamos ferros para isso

e assim não ficou escrito --- nunca será lido

[…]

 

em Ode a Outros e a Maria Helena Vieira da Silva

Cesariny, Mário (“19 projectos de prémio Aldonso Ortigão

seguidos de Poemas de Londres”, 1971)

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por JQ, em 09.06.15

 "Vous rêvez" (dir. Julien Eger and Johann Buchholz)

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Alguns riscos


Indícios?, por demais

um tremendo cansaço

de coisas feias, e daí

sons, diversos traços

caracteres alguns

de um rasto só


Algum tempo:


2017 Janeiro 2016 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho Maio Abril Março Fevereiro Janeiro ; 2015 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho Maio Abril Março Fevereiro Janeiro ; 2014 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho Maio Abril Março Fevereiro Janeiro; 2013 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho Maio Abril Março Fevereiro Janeiro; 2012 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho


Junho 2006/Junho 2012

(arquivos não acessíveis

via Google Chrome)


Algumas pessoas:


T ; José Carvalho da Costa, Francisco Q ; Alcino V, Vitor P ; José Carlos T, Fernando C, Eduardo F ; Paulo V, "Suf", Zé Manel, Miguel D, S, Isabel, Nancy ; Zé T, Marcelo, Faria, Eliana ; Isabel ; Ana C ; Paula, Carlos, Luís, Pedro, Sofia, Pli ; Miguel B ; professores Manuel João, Rogério, Fátima Marinho, Carlos Reis, Isabel Almeida, Paula Morão, Ivo Castro, Rita Veloso, Diana Almeida


Outros que, no exacto antípoda dos anteriores, despertam o pior de mim:


Demasiados. Não cabem aqui. É tudo gente discursivamente feia. Acendendo a TV ou ouvindo quem fora dela reproduz agendas mediáticas, entre o vómito e o tédio a lista tornar-se-ia insuportavelmente longa.


Uma chave, mais um chavão? A cultura popular do início deste séc. XXI fede !


joseqcarvalho@sapo.pt


Alguns nomes:


José Afonso ; 13th Floor Elevators, The Monks, The Sonics, The Doors, Jimi Hendrix, The Stooges, Velvet Underground, Love / Arthur Lee, Pink Floyd (1967-1972), Can, Soft Machine, King Crimson, Roxy Music; Nick Drake, Lou Reed, John Cale, Neil Young, Joni Mitchell, Led Zeppelin, Frank Zappa ; Lincoln Chase, Curtis Mayfield, Sly & The Family Stone ; The Clash, Joy Division, The Fall, Echo & The Bunnymen ; Ramones, Pere Ubu, Talking Heads, The Gun Club, Sonic Youth, Pixies, Radiohead, Tindersticks, Divine Comedy, Cornelius, Portishead, Beirut, Yo La Tengo, The Magnetic Fields, Smog / Bill Callahan, Lambchop, Califone, My Brightest Diamond, Tuneyards ; Arthur Russell, David Sylvian, Brian Eno, Scott Walker, Tom Zé, Nick Cave ; The Lounge Lizards / John Lurie, Blurt / Ted Milton, Bill Evans, Chet Baker, John Coltrane, Jimmy Smith ; Linton Kwesi Johnson, Lee "Scratch" Perry ; Jacques Brel, Tom Waits, Amália Rodrigues ; Nils Frahm, Peter Broderick, Greg Haines, Hauschka ; Franz Schubert, Franz Liszt, Eric Satie, Igor Stravinsky, György Ligeti ; Boris Berezovsky, Gina Bachauer, Ivo Pogorelich, Jascha Heifetz, David Oistrakh, Daniil Trifonov


Outros nomes:


Agustina Bessa Luís, Anna Akhmatova, António Franco Alexandre, Armando Silva Carvalho, Bob Dylan, Boris Vian, Carl Sagan, Cole Porter, Daniil Kharms, Evgeni Evtuchenko, Fernando Pessoa, George Steiner, Gonçalo M. Tavares, Guy Debord, Hans Magnus Enzensberger, Harold Bloom, Heiner Müller, João MIguel Fernandes Jorge, John Mateer, John McDowell, Jorge de Sena, José Afonso, Jürgen Habermas, Kevin Davies, Kurt Vonnegut Jr., Lêdo Ivo, Leonard Cohen, Luís de Camões, Luís Quintais, Marcel Proust, Marina Tzvietaieva, Mário Cesariny, Noam Chomsky, Ossip Mandelstam, Ray Brassier, Raymond Williams, Roland Barthes, Sá de Miranda, Safo, Sergei Yessinin, Shakespeare, Sofia M. B. Andresen, Ted Benton, Vitorino Nemésio, Vladimir Maiakovski, Wallace Stevens, Walter Benjamin, W.H. Auden, Wislawa Szymborska, Zbigniew Herbert, Zygmunt Bauman


Algum som & imagem:


Avec élégance

Crazy clown time

Danse infernale

Dark waters

Der himmel über berlin

Forever dolphin love

For Nam June Paik

Gridlocks

Happy ending

Lilac Wine

L'heure exquise

LoopLoop

Materials

Megalomania

Metachaos

Nascent

Orphée

Sailing days

Soliloquy about...

Solipsist

Sorry, I'm late

Submerged

Surface

Their Lullaby

The raw shark texts

Urban abstract

Unter