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por JQ, em 04.11.15

As barcas gritam sobre as águas.

Eu respiro nas quilhas.

Atravesso o amor, respirando.

Como se o pensamento se rompesse com as estrelas

brutas. Encosto a cara às barcas doces.

Barcas maciças que gemem

com as pontas da água.

Encosto-me à dureza geral.

Ao sofrimento, à ideia geral das barcas.

Encosto a cara para atravessar o amor.

Faço tudo como quem desejasse cantar,

colocado nas palavras.

Respirando o casco das palavras.

Sua esteira embatente.

Com a cara para o ar nas gotas, nas estrelas.

Colocado no ranger doloroso dos remos,

Dos lemes das palavras.

 

É o chamado rio tejo

pelo amor dentro.

Vejo as pontes escorrendo.

Ouço os sinos da treva.

As cordas esticadas dos peixes que violinam a água.

É nas barcas que se atravessa o mundo.

As barcas batem, gritam.

Minha vida atravessa a cegueira,

chega a qualquer lado.

Barca alta, noite demente, amor ao meio.

Amor absolutamente ao meio.

Eu respiro nas quilhas. É forte

o cheiro do rio tejo.

 

Como se as barcas trespassassem campos,

a ruminação das flores cegas.

Se o tejo fosse urtigas.

Vacas dormindo.

Poças loucas.

Como se o tejo fosse o ar.

Como se o tejo fosse o interior da terra.

O interior da existência de um homem.

Tejo quente. Tejo muito frio.

Com a cara encostada à água amarela das flores.

Aos seixos na manhã.

Respirando. Atravessando o amor.

Com a cara no sofrimento.

Com vontade de cantar na ordem da noite.

 

Se me cai a mão, o pé.

A atenção na água.

Penso: o mundo é húmido. Não sei

o que quer dizer.

Atravessar o amor do tejo é qualquer coisa

como não saber nada.

É ser puro, existir ao cimo.

Atravessar tudo na noite despenhada.

Na despenhada palavra atravessar a estrutura da água,

da carne.

Como para cantar nas barcas.

Morrer, reviver nas barcas.

 

As pontes não são o rio.

As casas existem nas margens coalhadas.

Agora eu penso na solidão do amor.

Penso que é o ar, as vozes quase inexistentes no ar,

o que acompanha o amor.

Acompanha o amor algum peixe subtil.

 

 

Herberto Helder

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Alguns riscos


Indícios?, por demais

um tremendo cansaço

de coisas feias, e daí

sons, diversos traços

caracteres alguns

de um rasto só


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Outros que, no exacto antípoda dos anteriores, despertam o pior de mim:


Demasiados. Não cabem aqui. É tudo gente discursivamente feia. Acendendo a TV ou ouvindo quem fora dela reproduz agendas mediáticas, entre o vómito e o tédio a lista tornar-se-ia insuportavelmente longa.


Uma chave, mais um chavão? A cultura popular do início deste séc. XXI fede !


joseqcarvalho@sapo.pt


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