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Algo sobre "ser-se piano e nada mais no mundo"

por JQ, em 08.07.16

Quase sessenta mazurcas; cerca de trinta estudos;

duas dúzias de prelúdios; uma vintena de nocturnos;

umas quinze valsas; mais de uma dúzia de “polonaises”;

“scherzos”, improvisos, e baladas, quatro de cada;

três sonatas para piano; e dois concertos para piano e orquestra,

uma “berceuse”, uma barcarola, uma fantasia, uma tarantela, etc.,

além de umas dezassete canções para canto e piano; uma tuberculose mortal;

um talento de concertista; muitos sucessos mundanos; uma paixão infeliz;

uma ligação célebre com mulher ilustre; outras ligações sortidas;

uma pátria sem fronteiras seguras nem independência concreta;

a Europa francesa do Romantismo; várias amizades com homens eminentes;

e apenas trinta e nove anos de vida. Outros viveram menos, escreveram mais,

comeram mais amargo o classicamente amargo pão do exílio, foram ignorados

ou combatidos, morreram abandonados, não se passearam nas alcovas

ou nos salões da glória, confinaram-se menos ao instrumento que melhor dominavam,

e mesmo foram mais apátridas sofrendo de uma pátria que não haja.

Além disso, quase todos escaparam mais à possibilidade repelente

de ser melodia das virgens, ritmo dos castrados,

requebro de meia-tijela, nostalgia dos analfabetos,

e outras coisas medíocres e mesquinhas da vulgaridade, como ele não. Ou de ser

prato de não-resistência para os concertistas que tocam para as pessoas que julgam

que gostam de música mas não gostam. Ainda por cima

era um arrivista, um pedante convencido da aristocracia que não tinha,

um reaccionário ansiando por revoluções que libertassem as oligarquias

da Polónia, coitadinhas, e outras. E, para cúmulo,

a gente começa a desconfiar de que não era sequer um romântico,

pelo menos da maneira que ele fingiu ser e deixou entender que era.

Uma arte de compor a música como quem escreve um poema,

a força que se disfarça em languidez, um ar de inspiração

ocultando a estrutura, uma melancolia harmónica por sobre

a ironia melódica (ou o contrário), a magia dos ritmos

usada para esconder o pensamento – e escondê-lo tanto,

que ainda passa por burro de génio este homem que tinha o pensamento nos dedos,

e cuja audácia usava a máscara do sentimento ou das formas livres

para criar-se a si mesmo. Tão hábil na sua cozinha, que pode servir-se

morno, às horas da saudade e da amargura,

quente, nas grandes ocasiões da vida triunfal,

e frio, quando só a música dirá o desespero vácuo

de ser-se piano e nada mais no mundo.

 

 

Chopin: Um Inventário - Jorge de Sena (1968)

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Alguns riscos


Indícios?, por demais

um tremendo cansaço

de coisas feias, e daí

sons, diversos traços

caracteres alguns

de um rasto só


Algum tempo:


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Junho 2006/Junho 2012

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Outros que, no exacto antípoda dos anteriores, despertam o pior de mim:


Demasiados. Não cabem aqui. É tudo gente discursivamente feia. Acendendo a TV ou ouvindo quem fora dela reproduz agendas mediáticas, entre o vómito e o tédio a lista tornar-se-ia insuportavelmente longa.


Uma chave, mais um chavão? A cultura popular do início deste séc. XXI fede !


joseqcarvalho@sapo.pt


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