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por JQ, em 24.08.16

Dir-se-ia – cada uma destas etapas é da ordem da tentativa, do provisório – que está precisamente ausente da «criação» a penumbra do falso, do confeccionado inseparável da linguística e dos actos de linguagem da «invenção». As palavras «não inventes» endereçadas a uma criança, ou até a um adulto, querem dizer «não mintas, não contes tretas». «Não cries» seria, para todos os efeitos, uma injunção absurda. Num outro registo, todavia, como o do iconoclasmo, os interditos que se referem à «criação» poderão revelar-se fundamentais. Já citei o tabu relativo ao «fabrico de imagens» presentes no judaísmo e no islão. Criar imagens, nesta ordem de ideias, é «inventar», «romancear», ao serviço de uma realidade virtual, presenças reais que se situam para além da percepção humana ou dessa rivalidade (no seu furor de verdade, Hamlet recusa toda a «aparência»). Uma e outra vez, depararemos com o sentimento, dividido entre a exultação e a blasfémia, por parte do artista de ser um «contra-criador», de rivalizar com o fiat original, com o «que seja» do início. A falta de humor, tão vincada no retrato hebraico e cristão do Deus revelado, inscrever-se-á na seriedade da criação? A invenção é com frequência humorística. Surpreende quando a criação, no sentido do grego thaumazein, origem de toda a filosofia, nos assombra, nos espanta como o trovão ou o brilho das auroras boreais.

 

excerto de "Gramáticas da Criação" – George Steiner (2001)

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De Maria Árvore a 24.08.2016 às 18:03

Se de antemão nada nos espantasse, a vida não teria metade da piada. 


Descobrir os outros, descobrir coisas novas que estavam mesmo ali à nossa beira mas em que não reparámos antes é que torna divina a vida. Porque nos faz sentir que somos os criadores do sentido da vida e assim a vida faz algum sentido, já que vemos, ouvimos e lemos à nossa imagem e semelhança. :) 


Tudo o que nos impeça de criar é uma ditadura como as das religiões. Ser livre devia ser um principio básico de todo o ser humano e sem criação não creio que haja liberdade.
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De JQ a 24.08.2016 às 22:06

Ok, vou agora evitar responder, como nos anteriores, com absurdos sobre futebolês. Porquê? Não me apetece e nem o post nem o teu comentário merecem uma resposta parva. Francamente, é-me impossível discordar da maior parte do que disseste. Sim, sem algum espanto à mistura nada "disto" (a realidade, a virtualidade) valeria a pena. A descoberta de "novidades" talvez ainda seja possível. Mesmo não o sendo, sei lá eu, é forçoso acreditar nisso. Descrendo, talvez apenas surjam pastiches do passado.


Bom, mantendo latente uma intolerância feroz contra quem tente impedir-me de criar, já quanto ao que "nos faz sentir que somos os criadores do sentido da vida e assim a vida faz algum sentido, já que vemos, ouvimos e lemos à nossa imagem e semelhança" algumas dúvidas:


Enquanto periclitante agnóstico, faltam-me certezas sobre o livre arbítrio, o sentido da vida e não sei bem o quê, sobre quem raio será o seu responsável (se algum) e, decididamente, não me basta a minha imagem ou semelhança para aceitar que algo "nisto" (a realidade, a virtualidade) seja bastante para fazer algum sentido.


Ainda preciso de alguma lógica para sobreviver. Ei, ainda sou macaco, mas, do pescoço para cima, persistem algumas sinapses. Bom, a correr bem, uma ou duas. Francamente, suspeito que os meus contemporâneos já com nem isso se importam.


Lamento. Venha daí a selva, algures entre o que J.C. ou Darwin pior recearam. A maior parte de nós, logo que possa, vai ser péssima para "o próximo". Francamente, não quero saber, não me considero melhor do que ninguém. Um favor mínimo apenas peço, não se aproximem demasiado. Não quero revelar o pior de mim seja a quem for.
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De Maria Árvore a 24.08.2016 às 22:34

Só me apetece começar com uma frase do "Pai Tirano": "Ó inclemência! Ó martírio! Estará porventura periclitante a saúde desse menino que eu ajudei a criar?"


Mas também porque, sem conhecer estatísticas que o provem, acredito que a personalidade de cada um é fixada nos primeiros 6 anos de vida. E depois dessa grade, vamos juntando as experiências de vida e é aí que está o nosso livre arbítrio. Por isso também suponho que o sentido da vida é o que nos parecer lógico e pode até nunca haver um. Porque mesmo que a nossa vida faça sentido estão sempre os outros a mostrar-nos que o conjunto não faz sentido.


Daí que para mim só faça sentido o que me pareça que valha a pena, porque nem tudo vale a pena. Vivemos numa selva e todavia, apesar de todos os animais e de eu própria ser primata, prometi a mim mesma ser humana o mais possível e se desistir disso perco o meu sentido de vida.


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De JQ a 24.08.2016 às 22:56

Ora bolas, em três penadas reduziste o pessimismo do meu comentário anterior ao quase absoluto nada (entendes agora porque te odeio e simultaneamente te adoro?:)
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De Maria Árvore a 24.08.2016 às 23:36

É tão bom saber que provoco alguma reacção em alguém  :)))) Vale mesmo a pena ler-te. :)))

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