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por JQ, em 06.01.17

Salvé, reino animal:

todo o peso celeste

suportas no teu ermo.

 

Toda a carga terrestre

carregas como se

fosse feita de vento.

 

Teus cascos lacerados

na lixa do caminho

e tuas cartilagens

 

e teu rude focinho

e tua cauda zonza,

teu pêlo matizado,

 

tua escama furtiva,

as cores com que iludes

teu negrume geral,

 

Teu voo limitado,

teu rasto melancólico,

tua pobre Verónica

 

em mim, que nem pastor

soube ser, ou serei,

se incorporam num sopro.

 

Para tocar o extremo

da minha natureza,

limito-me: sou burro.

 

Para trazer ao feno

o senso da escultura,

concentro-me: sou boi.

 

A vária condição

por onde se atropela

essa ânsia de explicar-me

 

agora se apascenta

à sombra do galpão

neste sinal: sou anjo.

 

 

Carlos Drummond de Andrade

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De Anónimo a 08.01.2017 às 16:48

Porque os anjos brilham mais para quem consiga vê-los.
Ou como diria a Sophia:

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos
Porque os outros calculam mas tu não.

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De JQ a 09.01.2017 às 12:29

Olá. Tenho uma vaga ideia, ouvida numa aula de Literatura já com uns anitos, de que estes versos terão sido escritos um pouco a pensar na frontalidade do marido, Francisco Sousa Tavares, enquanto assumido antifascista.
Grato pelo envio, claro, mas garanto-lhe que só meia de dúzia de versos se aproximam de uma sempre dúbia noção de identificação. Sim, já me acomodei o bastante para evitar "dar o peito às balas". Francamente, se, p. ex., me tivesse calhado viver na Síria, estaria neste momento a atravessar o Mediterrâneo a nado. Bom, faz-se o que se pode.
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De Anónimo a 09.01.2017 às 13:49

Olá. Atravessar o Mediterrâneo a nado é lucidez, a mesma que mostra ao mostrar uma figura feminina no meios dos músicos à laia de Música e/ou Musa de inspiração. Universal será o comportamento de nos limitarmos para sobreviver quando o mundo não nos entende.
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De JQ a 11.01.2017 às 13:16

Ainda mal trocamos um par de comentários e já me vou permitir discordar ligeiramente (é só um acréscimo). Sim, lucidez e vontade sobreviver é fugir de bombardeamentos constantes do próprio governo, dos países vizinhos e doutros países "narigudos" mais distantes. Atravessar  o Mediterrâneo "a nado" ou numa barcaça de traficantes é desespero. O risco é imenso e o prémio está em chegar a um continente onde demasiados desconfiam de pigmentações mais escuras.
[quanto à figura feminina nas imagens, de cada vez que me calha limpar a casa, ocorre-me sempre que talvez não tivesse havido sedentarização nem sequer civilização sem "o eterno feminino" por perto; sim, a maior de nós (mânfios :) não passamos de uma cambada de bárbaros :]

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um tremendo cansaço

de coisas feias, e daí

sons, diversos traços

caracteres alguns

de um rasto só


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