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por JQ, em 11.04.13

- Tio, porque ‘tás a ler esse livro [ Gedichte, Georg Trakl, 1913 ] em voz alta?

- Soa-me bem. O assunto pode ser triste, mas acho-lhe Graça. Tu não?

- Não. Não percebo nada disso.

- E é preciso? As Línguas são como outras coisas do mundo. Já vêm muito de longe. Não são para entender no momento. São para ir entendendo… as coisas do mundo.

- Hum, isso parece muito grande. Não gosto.

- Algum esforço é preciso. A sério. Tu é que puxaste o assunto, caramba. Não me queres dar um pouco dessa tua, hum, atenção?

- Ok. A Playstation está meio lenta hoje…

- Há uma carrada de tempo as primeiras pessoas começaram a falar sobretudo para saber onde evitar ser comido, onde se podia comer melhor.

- Isso é um bocado triste, não é? Não passarmos de comida uns dos outros...

- É. As coisas foram mudando, mas não muito. Ainda queremos saber onde ficam os restaurantes onde vale a pena comer. Alguns, cada vez menos, ainda procuram filmes, discos, livros que acham mais decentes. Quanto ao diálogo, todos vamos ficando cada vez mais iguais. Entre tanto, a maior parte de nós já desistiu de procurar a menor parte dos outros – aquilo que realmente importa. Quando falamos, vamos dizendo o bastante para distrair a passagem do Tempo e pouco mais. Há nisso tudo um enorme desperdício. A gente tacteia, a gente balbucia o que vago for, em busca de uma sombra de afecto ou de atenção, mas, se bem que não pareça, a maior parte de nós já se rendeu ao mais banal. Convencemo-nos de que pouco ou nada existe do outro lado.

- Ora bolas, tio. Lá vens tu com o teu pessimismo militante. Sabes que isso me entristece, não sabes?

- Sei, mas às vezes esqueço-me. Não é por mal, é uma réstea de uma vontade antiga de ser útil. Talvez já te tenha falado de uma autópsia a que tive de assistir há uma dúzia de anos. Logo de início, quando o médico-legista fez aquele corte em Y no peito do defunto, dele transbordou cá para fora uma coisa gorda, uma espécie de gelatina amarelo-horrível. E o sangue escuro, depois? E o técnico sujeito, soltando piadas banais, em prol da saúde social da diminuta audiência? Enquanto isso, ia quebrando ossos com uma turquez enorme, remexendo, com luvas de um vermelho de sangue sujo, no fígado, no baço, no coração e por aí fora. Repare-se, por um instante: somos tão feios por dentro… os nossos ossos até são bonitos, quase elegantes na simplicidade da sua cor e forma. O pior é quando aquelas pequenas serras mecânicas tão actuais, tão giratórias e abrasivas, nos vão cortando, distraindo alguma pena do melhor que em nós reside. Bolas! Alguma esperança entre um nariz e sobrancelhas meio semitas e aquele cheiro medonho a osso queimado? Claro que não. Na dor e na trapaça, somos todos árabes, memória incerta que, contudo, não se foi de vez.

- Esquece isso, tio! Mais valia leres Alemão em voz alta.

- É. Tens razão. Não devia dizer-te tudo isto. Ainda há coisas que cada um precisa descobrir por si próprio. Seja em Alemão, Português, ou noutra Língua qualquer, poucos agarram o que vale. Também pouco se aproveita da maior parte do que os outros dizem. O Conhecimento não é tudo (talvez adubo, apenas, ou estrume, se acompanhado de vaidade...). Não basta para chegarmos mais além, mais por dentro, ou por aí. A dor - a minha, pelo menos - reside naquele deserto em que cada vez se aprende menos com a maior parte dos outros. O mais difícil - o que deveras me interessa - é encontrar a menor parte que em todos ainda resiste, aquilo que realmente importa em cada um.

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Alguns riscos


Indícios?, por demais

um tremendo cansaço

de coisas feias, e daí

sons, diversos traços

caracteres alguns

de um rasto só


Algum tempo:


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Outros que, no exacto antípoda dos anteriores, despertam o pior de mim:


Demasiados. Não cabem aqui. É tudo gente discursivamente feia. Acendendo a TV ou ouvindo quem fora dela reproduz agendas mediáticas, entre o vómito e o tédio a lista tornar-se-ia insuportavelmente longa.


Uma chave, mais um chavão? A cultura popular do início deste séc. XXI fede !


joseqcarvalho@sapo.pt


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