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por JQ, em 14.04.13

Uma civilização é um combate para conservar o autodomínio, sendo nisto como uma grande personagem histórica, uma Níobe que deve dar mostras de coragem quase sobre-humana, sob pena de o seu grito não conseguir comover-nos. A perda de controlo sobre o pensamento chega já próximo do fim; primeiro uma cedência do ser moral, depois a derradeira rendição, o queixume irracional, a revelação – o grito do pavão de Juno.

[…]

É impossível fazer mais do que escolher uma data arbitrária, genérica, para o início da decadência de Roma (1 a 250 d.C.). A escultura romana, por exemplo – a escultura criada sob influência romana, fosse o escultor ou não de sangue romano – só na Era Cristã atingiu a plenitude do seu vigor, se considerarmos aquilo que nela havia de propriamente romano e não de grego. Nela se fez até uma descoberta que afectou toda a escultura vindoura.

 

Os gregos pintavam os olhos das estátuas de mármore e faziam olhos de esmalte, de vidro ou de pedras preciosas para as suas estátuas de bronze, mas os romanos foram os primeiros a abrir um orifício redondo para representar a pupila, e isto devido, julgo eu, a uma atenção ao olhar característica de uma civilização na sua fase final. As cores deviam já ter-se apagado nos mármores do período áureo, e uma sombra e uma zona de luz, especialmente nos lugares de muito sol, têm muito mais vida do que a tinta, o esmalte, o vidro colorido ou a pedra preciosa. Podiam agora exprimir na pedra a perfeita compostura. O espírito administrativo, a atenção alerta, destronaram o ritmo, a exaltação do corpo, a energia livre.

 

Não terá sido precisamente o talento para essa atenção alerta que permitiu a Roma, e não à Grécia, expressar as derradeiras fases primárias? Vemos nos frontões verdadeiros exércitos de senadores de mármore, dignitários serenos e vigilantes como convém a homens cientes de que todo o poder do mundo lhes pasa diante dos olhos, exigindo deles, para não se desagregar, uma atenção pausada, incessante e tranquila. Os cavaleiros do Pártenon tinham todo o poder do mundo no movimento dos seus corpos, um movimento que mais parecia, tão bem se lhe entregavam o homem e o animal, o de uma dança; mas em breve tudo mudou, o comedimento sucedeu ao prazer, o professor de dança sobreviveu ao baile. Para que precisavam esses rapazes de olhos atentos?

 

Na Roma dos séculos I e II, onde o próprio professor de dança já morreu, tudo se resume ao delinear do carácter através do rosto e da cabeça, como acontece entre nós de há alguns anos a esta parte, e os escultores, acompanhando os usos dos funcionários sempre ocupados, armazenam nas suas oficinas corpos togados de mármore aos quais podem aparafusar-se, sem perda de tempo, as cabeças copiadas dos modelos com o mais escrupuloso realismo.

 

Quando penso em Roma vejo sempre essas cabeças de olhos atentos ao mundo, e esses corpos tão convencionais como as metáforas de um artigo de jornal, e comparo na minha imaginação os vagos olhos gregos que nada olham, os olhos bizantinos, de marfim perfurado, postos numa visão, e as pálpebras da China e da Índia, esses olhos velados ou semivelados, cansados do mundo, cansados de visões.

 

 

excerto de Uma Visão, W.B. Yeats

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um tremendo cansaço

de coisas feias, e daí

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