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por JQ, em 23.04.13

Devido às suas imperfeições, Virgílio quis destruir a Eneida. Houve artistas que fizeram desaparecer as suas obras ou se tornaram absolutamente incapazes de retomá-las. As obras «auto-destrutivas» de Tinguely, as construções cinéticas, que se desconjuntam ou reduzem a pó, dão corpo, com humor, a uma dinâmica complexa e profunda da culpabilidade e da desilusão inerentes à actividade de criação efectiva. A analogia entretece-se aqui com a afirmação de Anaximandro sobre a existência do homem: «Mais valeria não ser». Ser releva, inevitavelmente, compromisso.

 

Tal é a razão das afinidades, que teremos frequentemente ensejo de confirmar, entre as fenomenologias da arte e as da abordagem ocidental da morte. Ao contrário do que pretende o cliché, o irmão da morte talvez não seja o sono, mas a arte, e em particular a música. Ao mesmo tempo que exprime na sua essência a vitalidade, a força da vida e o prodígio da criação, a obra de arte é acompanhada por uma dupla sombra: a da sua possível ou preferível inexistência, e a do seu desaparecimento.

 

Diferentemente do que acontece com a ciência, a arte e, segundo  pressinto, o sistema metafísico com as suas pretensões de verdade situam-se na sinapse exacta onde se reúnem o ser sob a sua forma mais «vívida» e a extinção. A escolha aparentemente deliberada de Leonardo da Vinci de técnicas e materiais perecíveis para a sua «Ceia», hoje quase invisível, ilustra este encontro. Uma boa parte da música que nos toca mais intimamente parece desafiar o fim e torná-lo mais próximo, celebrando o inevitável. Kafka para Milena: «Ninguém canta mais puramente que aqueles que estão no mais fundo inferno; é o seu canto que tomamos pelo dos anjos».

 

excerto de Gramáticas da Criação, George Steiner, 2001

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Alguns riscos


Indícios?, por demais

um tremendo cansaço

de coisas feias, e daí

sons, diversos traços

caracteres alguns

de um rasto só


Algum tempo:


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Junho 2006/Junho 2012

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Outros que, no exacto antípoda dos anteriores, despertam o pior de mim:


Demasiados. Não cabem aqui. É tudo gente discursivamente feia. Acendendo a TV ou ouvindo quem fora dela reproduz agendas mediáticas, entre o vómito e o tédio a lista tornar-se-ia insuportavelmente longa.


Uma chave, mais um chavão? A cultura popular do início deste séc. XXI fede !


joseqcarvalho@sapo.pt


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