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por JQ, em 12.05.13

- Tio, em que pensas?

- Estava aqui a ler umas coisas sobre os primeiros séculos da Cristandade, quando os cristãos, a princípio perseguidos como perigosos marginais, foram crescendo entre as ruínas do Império romano… um pouco à imagem dos islamitas actuais: gente também oprimida, que também se julga possuída por uma razão sempre maior que a dos seus vizinhos.

- Tio, não vás por aí. Hoje não. Hoje acordei irritado. Não quero saber do passado.

- Bom, de que queres saber, afinal?

- Quero saber de Hoje, tio. Está visto que estes gajos nem com 10 milhões a protestar no Terreiro Paço se iriam embora. Diz-me: Não se pode exterminá-los?

- Poder pode-se, mas não eu, nem tu, nem o vizinho do lado. A não ser que faças parte de governos e telejornais, dessa gente do comércio da notícia e da politiquice, das multinacionais do petróleo e das armas, da doença e da farmácia, da comida e do monopólio das sementes… aí, sim, podes dar o teu valente contributo para destruir a vida de milhares e milhares de pessoas, desde que te mantenhas sempre airoso, muito respeitável, e repitas “inevitável” as vezes que forem precisas.

- Oh, tio, eu só perguntei se não se pode exterminar estes cabrões que nos governam. 

- Até o Gandhi, se hoje fosse vivo e tentasse fazer o que fez do mesmo modo, seria pintado como um terrorista pelos vendilhões do Tempo. Tiravam-lhe a tosse em menos de um interrogatório e dois telejornais.

- Ainda assim, não se pode exterminá-los?

- Se o Poder pode? Claro que sim. Não me admiraria nada se dentro de alguns anos ficássemos com a certeza de que a maior parte dos actos terroristas, do incêndio do Reichstag em diante, foram promovidos, de forma mais ou menos directa, pelos detentores de poderes regionais ou mais imperiais.

- Mas não se deve exterminar um ou dois? Sei lá, meia dúzia, só para quem vier a seguir se lembrar que não pode roubar assim tanto. Não foste tu que me disseste que depois das guerras as pessoas até se portam geralmente bem umas com as outras; as elites, durante algum tempo, evitam os erros que levaram ao desastre e quase todos reaprendem a funcionar em equipa?

- Eu disse isso? Não ligues ao que eu digo. A maior parte das vezes são gases que não cabem cá dentro.

- Disseste, disseste.

- Não é assim tão simples. Que eu saiba, isso aconteceu depois da 2ª Guerra e ainda agora, depois de inundações e terramotos, mas hoje mais de metade dos conhecidos e desconhecidos com que a gente se cruza por essas ruas, se estivessem no lugar destes cabrões da alta finança, talvez fizesse o mesmo ou algo parecido. É isto, mais do que os governos e os telejornais do costume, que realmente importa quando falamos de polis e de política. Já não há sociedade, só o eu-me-mim e o resto que lixe. Já não há um sentir minimamente colectivo, muito menos uma noção do bem comum. Muitos ainda falam, não sei bem o quê, mas poucos se ouvem entre si. Nos ecrans e na rua, já quase ninguém demonstra interesse para além do próprio umbigo. Talvez, pelo menos à superfície, ninguém realmente preste. Daí a epidemia actual de chicos-espertos, que se servem dos outros para atingir objectivos que julgam úteis para si próprios, ou para os seus filhos, ou para os seus amigos, sem se preocuparem se nesse processo estão a prejudicar desconhecidos.

- Mas até por isso, por pisarem seja quem for, não devemos exterminá-los?

- Acho que não vale a pena. Trata-se de gente muito rasteira. Ficaríamos como eles.

- Oh, tio, mas por este andar num dia destes alguém mais desesperado vai espetar um balázio no presidente ou no primeiro-ministro ou no gajo das finanças.

- Duvido. Somos um povo da treta. Sabemos resmungar, não sabemos acontecer. Mas, enfim, se alguém perder a cabeça, vamos todos dizer “temos pena” e por dentro ninguém vai ter pena nenhuma. Adiante. Não sei se já te falei dos Gnósticos...

- Não. Quem são?

- Eram uns tipos meio malucos. Afastaram-se e foram afastados do cânone cristão por volta do século III d.C., quando a Igreja começou a cobrar quotas e a distribuir cartões de sócio-honorário. Chamavam eles às ciências da morte, ao conhecimento dos mistérios da morte, “a pequena sabedoria”. Acreditavam em muitos disparates, mas nisso, ao menos, tinham a razão do seu lado.

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Alguns riscos


Indícios?, por demais

um tremendo cansaço

de coisas feias, e daí

sons, diversos traços

caracteres alguns

de um rasto só


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Demasiados. Não cabem aqui. É tudo gente discursivamente feia. Acendendo a TV ou ouvindo quem fora dela reproduz agendas mediáticas, entre o vómito e o tédio a lista tornar-se-ia insuportavelmente longa.


Uma chave, mais um chavão? A cultura popular do início deste séc. XXI fede !


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