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por JQ, em 28.10.13

It always bothers me to see people

writing 'RIP' when a person dies. It just feels

 so insincere and like a cop-out. To me, 'RIP' is

the microwave dinner of posthumous honors.

 

You know, some people got no choice,

and they can never find a voice, to talk

 with that they can even call their own.

So the first thing that they see,

that allows them the right to be,

 why they follow it, you know,

it’s called bad luck.

 

Lou Reed

 

 

 

Medonho me torna, talvez parte de uma espécie absurda, o misto de enfado e irritação quando, sobretudo no cinema gringo ou na escrita pop-rock, me cruzo com loas ao coração enquanto sede do que mais humano haverá em nós. A sério que sim, pois não passa de um músculo, um motorzinho que apenas pulsa, sim porque sim, ou não porque não, dependendo da saúde dessa substância viscosa, historicamente sobrevalorizada, a que chamaram sangue. Repare-se: até os peixes e anfíbios, até os reptéis e alguns invertebrados nascem providos desse músculo que bombeia seja o que for, qualquer substância surgida nesse caminho puramente animal. Algo de semelhante me acontece com a noção de alma. Isto não é apenas treta de blogger ocioso. Nos outros humanos e pós-humanos meus contemporâneos, até mesmo em vegetais e minerais, não faço a mínima ideia onde ou como localizar a alma ou o coração. Momento auto-depreciativo: em mim, avesso a quase todas as metáforas, ambos se situam algures entre o diafragma e intestino delgado, ou seja, no estômago. É aí, nesse sítio frequentemente cáustico, nessa paisagem no mínimo dissolvente, que residem as minhas escassas alegorias. É nesse fundo que costumo esbarrar no meu radar privado sobre o que sinto, sobre o que me rodeia. Claro que, subjacentes, ainda vou mantendo glândulas pelo corpo abaixo, por lugares baços e difíceis como o fígado ou o pâncreas, e outras geografias internas, de estética duvidosa, que por dentro nos alimentam de sensações ou de ideias sombras de outras sombras, mas isto nem de perto se pretende próximo de uma lição de Anatomia.

 

 

 

do "yearbook" liceal de Lou Reed 

 

 

Bom, fui longe demais. Queria apenas dizer que, real, electronica ou metaforicamente, ao longo desta minha viagem longe de ser curta, já me morreram nos dedos, nos olhos da alma e do coração metafóricos, demasiados e demasiadas. Apenas um software qualquer de duvidosa origem me tem permitido sentir a revessa desses tsunamis emocionais com a dilação minimamente confortável de alguns dias. Daí que o que se segue não é uma hipérbole.

A surpresa ocorreu ontem, ao fim da tarde, ao reparar que Lou Reed tinha falecido. Atente-se nesta circunstância digna de Asperger: sou incapaz de adorar seja quem for, sobretudo celebridades, até aquelas cuja obra mais admiro; podem nascer, pulular, dizer o que for, defecar verdades ou criar belas ilusões, e ainda assim os pés da minha alma ou do meu coração virtuais preferem conservar uma espécie de reserva emocional. Ao longo de tantas décadas, já se foram alguns parentes e demasiados amigos queridos, alguns criadores e pensadores, tudo gente que em mim deixou marcas pouco deléveis. Contudo, o tal aparelho produtor de dilações emocionais sempre preveniu maiores desastres. E daí ontem, ao fim da tarde, um inesperado murro no meu metafórico estômago. Apesar da memória que adverte da realidade em contrário, até ontem ainda sentia como natural e eterna a companhia de raras pessoas reais ou virtuais, que preferimos julgar próximas para todo o sempre. Bom, dizem que o Sr. Lewis Allan Reed faleceu. Pela reacção anómala das minhas entranhas, quase poderia jurar que não.

 

 

 

 Ao que consta, o primeiro registo videográfico de Lou Reed, em 1962

 

 

Ao fim de quase nove (sic) anos nesta coisa a que depreciativamente chamamos bloga, a quebra de um tabu pessoal: mais abaixo, um exercício necrológico na data da morte de alguém famoso. Sem fazer a mínima ideia se o costume ainda persiste, há meia dúzia de anos era bastante frequente: bastava que algum criador ou pensador fosse desta para pior para, sempre demasiado breves, se multiplicarem extremas pós-unções. Por essa altura, naqueles blogues com a janelinha de motor de busca interno, cheguei a tentar confirmar, com um misto de maldade e curiosidade, se os autores dos posts necrológicos teriam referido as vítimas ou as sua obras antes do seu falecimento.  Escusado será dizer que a curiosidade saiu quase sempre a perder. Não esquecendo que qualquer blogger pode adorar a obra de alguém sem a obrigação de referi-la antes da sua morte, julgo que, nesses casos sem passado, talvez se tratasse de um ou da combinação de três factores em ordem decrescente de benevolência: pura mimese de uma tradição jornalística; pretexto, seja ele qual for, para mais um post e/ou cativação oportunista de visitas derivadas do aumento exponencial de buscas pelo nome da celebridade logo após a sua morte. A aversão a funerais, e a qualquer destas razões para elaborar um post, justifica, creio, este meu tabu privado. O “meu” caso com Lou Reed é diferente. Entre músicas, vídeos, letras ou excertos delas, de Reed a solo, com parcerias infelizes, ou com os Velvet Underground, devo ter utilizado talvez meia dúzia por ano, o que rondará o abuso de várias dezenas. O “problema” é que são tantas, em cinco décadas de uma carreira nem sempre brilhante, as cancões dignas de registo ou memória deste filho de judeus, assumido gringo de Brooklin, que não sei bem o que lhes fazer no futuro.

 

 

 

 Rock'n'roll, The Velvet Underground, 1970

 

 

Um par de indícios contraditórios: em Julho de 2008, Reed veio concertar no lisboeta Campo Pequeno. No mesmo dia e hora, outro trovador, igualmente judeu e gringo, veio actuar no Optimus Alive, em Algés. Ainda recordo diversas manifestações infantis de “escolha”, típicas da bloga de então. Resumindo, quem se presumia totó, optou por um Cohen, claramente mais luzidio no seu domínio da palavra escrita e definitivamente muito mais limitado em termos estritamente musicais. Tratando-se essencialmente de música ao vivo, preferi pagar um balúrdio para ouvir Reed e a orquestra de que se serviu para reencenar “Berlin”, um dos  momentos mais felizes da sua história. Seja, também houve momentos em que discordei, em absoluto, dele:

 

I think it's pretentious to create art just for the sake of stroking the artists ego.

 

How can anybody learn anything from an artwork when the piece of art only reflects the vanity of the artist and not reality?

 

I don't believe in dressing up reality. I don't believe in using makeup to make things look smoother.


Dito isto, nem quero imaginar o montão de vezes que, nos próximos dias, os usuais connaisseurs da prosaica superfície das coisas, a gente do costume que prevalece, toda essa gente talvez inexperiente da mínima rebeldia que este mundo costuma exigir para revelar o que subjaz aos seus véus, irão reproduzir o estafado Walk On The Wild Side. Seja, nunca pior. Diria o bardo nova-iorquino e eu, ao menos nisso, acompanhá-lo-ia:

 

These are really terribly rough times, and we really should try to be as nice to each other as possible... I’ve been around, I know what makes things run… I’m set free to find the new illusion.

Autoria e outros dados (tags, etc)



Alguns riscos


Indícios?, por demais

um tremendo cansaço

de coisas feias, e daí

sons, diversos traços

caracteres alguns

de um rasto só


Algum tempo:


2017 Janeiro 2016 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho Maio Abril Março Fevereiro Janeiro ; 2015 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho Maio Abril Março Fevereiro Janeiro ; 2014 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho Maio Abril Março Fevereiro Janeiro; 2013 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho Maio Abril Março Fevereiro Janeiro; 2012 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho


Junho 2006/Junho 2012

(arquivos não acessíveis

via Google Chrome)


Algumas pessoas:


T ; José Carvalho da Costa, Francisco Q ; Alcino V, Vitor P ; José Carlos T, Fernando C, Eduardo F ; Paulo V, "Suf", Zé Manel, Miguel D, S, Isabel, Nancy ; Zé T, Marcelo, Faria, Eliana ; Isabel ; Ana C ; Paula, Carlos, Luís, Pedro, Sofia, Pli ; Miguel B ; professores Manuel João, Rogério, Fátima Marinho, Carlos Reis, Isabel Almeida, Paula Morão, Ivo Castro, Rita Veloso, Diana Almeida


Outros que, no exacto antípoda dos anteriores, despertam o pior de mim:


Demasiados. Não cabem aqui. É tudo gente discursivamente feia. Acendendo a TV ou ouvindo quem fora dela reproduz agendas mediáticas, entre o vómito e o tédio a lista tornar-se-ia insuportavelmente longa.


Uma chave, mais um chavão? A cultura popular do início deste séc. XXI fede !


joseqcarvalho@sapo.pt


Alguns nomes:


José Afonso ; 13th Floor Elevators, The Monks, The Sonics, The Doors, Jimi Hendrix, The Stooges, Velvet Underground, Love / Arthur Lee, Pink Floyd (1967-1972), Can, Soft Machine, King Crimson, Roxy Music; Nick Drake, Lou Reed, John Cale, Neil Young, Joni Mitchell, Led Zeppelin, Frank Zappa ; Lincoln Chase, Curtis Mayfield, Sly & The Family Stone ; The Clash, Joy Division, The Fall, Echo & The Bunnymen ; Ramones, Pere Ubu, Talking Heads, The Gun Club, Sonic Youth, Pixies, Radiohead, Tindersticks, Divine Comedy, Cornelius, Portishead, Beirut, Yo La Tengo, The Magnetic Fields, Smog / Bill Callahan, Lambchop, Califone, My Brightest Diamond, Tuneyards ; Arthur Russell, David Sylvian, Brian Eno, Scott Walker, Tom Zé, Nick Cave ; The Lounge Lizards / John Lurie, Blurt / Ted Milton, Bill Evans, Chet Baker, John Coltrane, Jimmy Smith ; Linton Kwesi Johnson, Lee "Scratch" Perry ; Jacques Brel, Tom Waits, Amália Rodrigues ; Nils Frahm, Peter Broderick, Greg Haines, Hauschka ; Franz Schubert, Franz Liszt, Eric Satie, Igor Stravinsky, György Ligeti ; Boris Berezovsky, Gina Bachauer, Ivo Pogorelich, Jascha Heifetz, David Oistrakh, Daniil Trifonov


Outros nomes:


Agustina Bessa Luís, Anna Akhmatova, António Franco Alexandre, Armando Silva Carvalho, Bob Dylan, Boris Vian, Carl Sagan, Cole Porter, Daniil Kharms, Evgeni Evtuchenko, Fernando Pessoa, George Steiner, Gonçalo M. Tavares, Guy Debord, Hans Magnus Enzensberger, Harold Bloom, Heiner Müller, João MIguel Fernandes Jorge, John Mateer, John McDowell, Jorge de Sena, José Afonso, Jürgen Habermas, Kevin Davies, Kurt Vonnegut Jr., Lêdo Ivo, Leonard Cohen, Luís de Camões, Luís Quintais, Marcel Proust, Marina Tzvietaieva, Mário Cesariny, Noam Chomsky, Ossip Mandelstam, Ray Brassier, Raymond Williams, Roland Barthes, Sá de Miranda, Safo, Sergei Yessinin, Shakespeare, Sofia M. B. Andresen, Ted Benton, Vitorino Nemésio, Vladimir Maiakovski, Wallace Stevens, Walter Benjamin, W.H. Auden, Wislawa Szymborska, Zbigniew Herbert, Zygmunt Bauman


Algum som & imagem:


Avec élégance

Crazy clown time

Danse infernale

Dark waters

Der himmel über berlin

Forever dolphin love

For Nam June Paik

Gridlocks

Happy ending

Lilac Wine

L'heure exquise

LoopLoop

Materials

Megalomania

Metachaos

Nascent

Orphée

Sailing days

Soliloquy about...

Solipsist

Sorry, I'm late

Submerged

Surface

Their Lullaby

The raw shark texts

Urban abstract

Unter