Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Isto

por JQ, em 02.06.15

 

9.5.2008. Expulsei-me de casa por volta das sete da manhã, logo após o sono interrompido por uma pequena turba de miúdos e miúdas fugidos da claridade (amigo/as do sobrinho de T). Um deles trauteava um refrão mais ou menos assim: «Nothing we can do, dididi-dadada, we’re fated to pretend». Pouco antes de descobrir que tais versos pertenciam a uma canção dos MGMT, peguei à pressa nuns livrecos mais à mão e também zarpei, em busca de uma sombra com árvores.

 

Num plástico saco, uma coisa académica sobre Jorge de Sena, organizada por Gilda Santos, mais «O Declínio da Mentira», de Oscar Wilde, ainda outra coisa sobre o matemático Alan Turing e computadores («The Man Who Knew Too Much», de David Leavitt), e, no fundo, «A Cruzada das Crianças», de Marcel Schwob.

 

De encantar, este último. 65 páginas preenchidas com 8 relatos colocados na boca de 10 intervenientes naquela trágica cruzada de 1212, que ficou conhecida com o nome do título. Acabei de lê-lo sob este sol danado, que me obrigou a vir transcrever uns excertos, aqui num cibertasco da Calçada do Garcia, em pleno kasbah lisboeta.

.../...

Relato do Papa Inocêncio III: São sete mil nas estradas com a cruz e o bordão. Não têm nada que comer, não têm armas, são incapazes e envergonham-nos. Ignoram qualquer verdadeira religião. Os meus servidores interrogaram-nos. Responderam que vão para Jerusalém para conquistar a Terra Santa. Os meus servidores disseram-lhes que não poderiam atravessar o mar. Responderam que o mar se separaria e secaria para os deixar passar. Os bons pais, piedosos e sensatos, esforçam-se por segurá-los. Eles quebram os ferrolhos durante a noite e saltam as muralhas. Muitos são filhos de nobres e cortesãs. Faz muita pena. Senhor, todos estes inocentes irão naufragar e serão entregues aos adoradores de Maomé.

.../...

Por aqui, o ambiente é pouco claro, bem longínquo de um «clean and well-lighted place» de Hemingway. Sou o único português. No livro, a cor branca é referida duas, três, meia dúzia de vezes por página. Pureza para Schwob, Nada ou quase morte para mim. Raras vezes senti tamanho desconforto na capital deste meu país tão moreno - mas não por isso -, sempre para mim tão estrangeiro.

.../...

Relato do Leproso:

- Quem és tu? - perguntei.

- Johannes, o Teutão – respondeu e as suas palavras eram límpidas e salutares.

- Onde vais?

- A Jerusalém para conquistar a Terra Santa.

Então ri-me e perguntei:

- Onde é Jerusalém?

- Não sei.

- O que é Jerusalém?

- É o Nosso Senhor.

Então ri-me de novo e perguntei:

- O que é o teu Senhor?

- Não sei. É branco.

.../...

Pressinto que faltam diversas cores no arco-íris - no meu espectro, pelo menos. Bom,  nenhuma das ausentes se aproxima do branco, de que tanto desconfio.

.../...

Relato de três crianças: Há muito tempo que caminhamos. Foram umas vozes brancas que chamaram por nós durante a noite. Chamavam todas as crianças. Eram como as vozes dos pássaros mortos durante o Inverno. E no princípio vimos muitos pobres pássaros estendidos na terra gelada, muitos passarinhos de pescoço vermelho. Depois vimos as primeiras flores e as primeiras folhas e com elas entrançamos cruzes. Cantámos ao entrar nas aldeias, como costumávamos fazer pelo Ano Novo. E todas as crianças corriam para nós. E avançámos como um exército.

Havia homens que nos amaldiçoavam, porque não conheciam o Senhor. Havia mulheres que nos pegavam pelo braço e interrogavam-nos e cobriam-nos a cara de beijos. E também houve boas almas, que nos trouxeram escudelas de madeira, leite morno e fruta. E todos tinham piedade de nós. Porque eles nem sabem para onde vamos e não ouviram as vozes.

Sobre a terra há florestas densas e rios e montanhas e atalhos cheios de silvas. E no fim da terra está o mar, que em breve iremos atravessar. E no fim do mar está Jerusalém.

.../...

O empregado daquele cibertasco, talvez paquistanês, fala comigo num Português pouco perceptível. Digo-lhe que pode falar Inglês, se quiser. Ele agradece e exercita-o, mas o seu sotaque obriga-me a um esforço enorme para não gargalhar.

.../...

Relato do Goliardo: Eu, pobre goliardo, clérigo miserável que vagueia pelas florestas e pelas estradas mendigando, em nome do Nosso Senhor, o meu pão de cada dia, vi um espectáculo piedoso e ouvi as palavras das criancinhas. 

Estou a falar à toa porque estou cheio de alegria. Rio por causa da Primavera e daquilo que vi. O meu espírito não é muito forte. Recebi a tonsura de clérigo com a idade de dez anos e já me esqueci das palavras em Latim. Sou como um gafanhoto porque salto daqui para ali e zumbo e, às vezes, abro umas asas às cores e a minha cabecinha é transparente e vazia. Dizem que S. João se alimentava de gafanhotos no deserto. Tinha que comer muitos. Mas S. João não era feito como nós. 

Sinto-me pleno de adoração por S. João, porque ele era errante e pronunciava palavras sem seguimento. Parece-me que essas palavras deviam ser mais doces. Este ano, a Primavera também é doce. Nunca houve tantas flores brancas e cor-de-rosa. Os prados estão lavados de fresco. Em toda a parte o sangue de Nosso Senhor rebrilha sobre as sebes. O Nosso Senhor é da cor do lírio, mas o seu sangue é rubro. Porquê? Não sei. Deve estar nalgum pergaminho. Se eu tivesse habilidade para as letras, havia de ter pergaminhos e de escrever neles. Desse modo, talvez pudesse eu comer muito bem todas as noites. 

.../...

Regresso a casa ao princípio da Tarde. Todos, tudo, até as paredes ressonam, num compasso demasiado harmónico entre o tédio e a melodia, como numa qualquer música de Keith Jarrett. Por hoje, perdoo-me o por demais refinado açucar da melancolia. De quando em vez, também preciso ressonar. Amanhã? Não faço ideia. Talvez tente dançar sapateado, soltando gases, talvez um berro, um grito até para mim arrepiante. Preciso descansar, suponho, mas, entre tão enorme Nada, receio que nenhum conforto surja no sufoco de tão ínfimo Isto.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)



Alguns riscos


Indícios?, por demais

um tremendo cansaço

de coisas feias, e daí

sons, diversos traços

caracteres alguns

de um rasto só


Algum tempo:


2017 Janeiro 2016 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho Maio Abril Março Fevereiro Janeiro ; 2015 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho Maio Abril Março Fevereiro Janeiro ; 2014 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho Maio Abril Março Fevereiro Janeiro; 2013 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho Maio Abril Março Fevereiro Janeiro; 2012 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho


Junho 2006/Junho 2012

(arquivos não acessíveis

via Google Chrome)


Algumas pessoas:


T ; José Carvalho da Costa, Francisco Q ; Alcino V, Vitor P ; José Carlos T, Fernando C, Eduardo F ; Paulo V, "Suf", Zé Manel, Miguel D, S, Isabel, Nancy ; Zé T, Marcelo, Faria, Eliana ; Isabel ; Ana C ; Paula, Carlos, Luís, Pedro, Sofia, Pli ; Miguel B ; professores Manuel João, Rogério, Fátima Marinho, Carlos Reis, Isabel Almeida, Paula Morão, Ivo Castro, Rita Veloso, Diana Almeida


Outros que, no exacto antípoda dos anteriores, despertam o pior de mim:


Demasiados. Não cabem aqui. É tudo gente discursivamente feia. Acendendo a TV ou ouvindo quem fora dela reproduz agendas mediáticas, entre o vómito e o tédio a lista tornar-se-ia insuportavelmente longa.


Uma chave, mais um chavão? A cultura popular do início deste séc. XXI fede !


joseqcarvalho@sapo.pt


Alguns nomes:


José Afonso ; 13th Floor Elevators, The Monks, The Sonics, The Doors, Jimi Hendrix, The Stooges, Velvet Underground, Love / Arthur Lee, Pink Floyd (1967-1972), Can, Soft Machine, King Crimson, Roxy Music; Nick Drake, Lou Reed, John Cale, Neil Young, Joni Mitchell, Led Zeppelin, Frank Zappa ; Lincoln Chase, Curtis Mayfield, Sly & The Family Stone ; The Clash, Joy Division, The Fall, Echo & The Bunnymen ; Ramones, Pere Ubu, Talking Heads, The Gun Club, Sonic Youth, Pixies, Radiohead, Tindersticks, Divine Comedy, Cornelius, Portishead, Beirut, Yo La Tengo, The Magnetic Fields, Smog / Bill Callahan, Lambchop, Califone, My Brightest Diamond, Tuneyards ; Arthur Russell, David Sylvian, Brian Eno, Scott Walker, Tom Zé, Nick Cave ; The Lounge Lizards / John Lurie, Blurt / Ted Milton, Bill Evans, Chet Baker, John Coltrane, Jimmy Smith ; Linton Kwesi Johnson, Lee "Scratch" Perry ; Jacques Brel, Tom Waits, Amália Rodrigues ; Nils Frahm, Peter Broderick, Greg Haines, Hauschka ; Franz Schubert, Franz Liszt, Eric Satie, Igor Stravinsky, György Ligeti ; Boris Berezovsky, Gina Bachauer, Ivo Pogorelich, Jascha Heifetz, David Oistrakh, Daniil Trifonov


Outros nomes:


Agustina Bessa Luís, Anna Akhmatova, António Franco Alexandre, Armando Silva Carvalho, Bob Dylan, Boris Vian, Carl Sagan, Cole Porter, Daniil Kharms, Evgeni Evtuchenko, Fernando Pessoa, George Steiner, Gonçalo M. Tavares, Guy Debord, Hans Magnus Enzensberger, Harold Bloom, Heiner Müller, João MIguel Fernandes Jorge, John Mateer, John McDowell, Jorge de Sena, José Afonso, Jürgen Habermas, Kevin Davies, Kurt Vonnegut Jr., Lêdo Ivo, Leonard Cohen, Luís de Camões, Luís Quintais, Marcel Proust, Marina Tzvietaieva, Mário Cesariny, Noam Chomsky, Ossip Mandelstam, Ray Brassier, Raymond Williams, Roland Barthes, Sá de Miranda, Safo, Sergei Yessinin, Shakespeare, Sofia M. B. Andresen, Ted Benton, Vitorino Nemésio, Vladimir Maiakovski, Wallace Stevens, Walter Benjamin, W.H. Auden, Wislawa Szymborska, Zbigniew Herbert, Zygmunt Bauman


Algum som & imagem:


Avec élégance

Crazy clown time

Danse infernale

Dark waters

Der himmel über berlin

Forever dolphin love

For Nam June Paik

Gridlocks

Happy ending

Lilac Wine

L'heure exquise

LoopLoop

Materials

Megalomania

Metachaos

Nascent

Orphée

Sailing days

Soliloquy about...

Solipsist

Sorry, I'm late

Submerged

Surface

Their Lullaby

The raw shark texts

Urban abstract

Unter