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por JQ, em 27.11.13

Antes que isto desague em mais um post de blogger tradicional que ainda me orgulho de ser, i.e., pleno de inutilidades para outros que não eu, seguem algumas sugestões para quem procura casa em Lisboa, resultado algo cru de impressões muito subjectivas após uma semana bem sofrida na selva imobiliária alfacinha. Aí vai:

 

Caras vítimas indefesas do pato-bravismo militante na arquitectura das últimas quatro décadas (ou seja, do nefasto conluio entre a banca, empreiteiros, autarcas e população, no seu geral, desprovida de uma sensibilidade visual bastante, e daí incapaz de evitar que numa cidade que já foi bonita apenas se mantenham dignos de olhar e viver alguns nichos em bairros ainda típicos, nalguma baixa pombalina, e outros acasos nalgumas zonas adjacentes), caso desconheçam alguém que conhece alguém que conhece alguém que conhece alguém que, a preço decente, até tem disponível um sítio também decente para venda ou arrendamento, preparem-se para desesperar com a disfuncionalidade de quase todos os infoportais imobiliários. Seja para deambular pelos sites (quase todos atolados em, passe a redundância, publicidade inútil), ou saltar de menu para sub-menu especificando a escolha, a quantidade de cliques obrigatórios e desnecessários roça frequentemente o absurdo.

Desconfiem sempre das fotos que acompanham o descritivo de cada anúncio. Poucas conseguem descrever o imóvel com a assertividade e aproximação ao real que os interessados procuram. Uma boa parte parece resultar da maior ignorância técnica ou da tradicional ausência de cultura visual de um povo mais vocacionado para a palavra treta. A outra metade deriva do típico chico-espertismo mediterrânico, em que um ligeiro conhecimento de como os botões das fotográficas máquinas funcionam, se bem que não consiga iludir os suspeitíssimos ângulos arredondados dessas fotos, permite transformar um quarto em que mal cabe uma cama de casal numa suite presidencial.

Detalhe pitoresco: cerca de metade dos anúncios desses portais não apresenta fotos da zona circundante ao imóvel; outros apresentam “vistas”, em que as aspas revelam paisagens que nada têm a ver o horizonte possível nem com a zona onde o imóvel se encontra. Exemplo demasiado utilizado: fotos da colina do Castelo de S. Jorge, “visto” do jardim de S. Pedro de Alcântara, em anúncios de imóveis com áreas brutas que na realidade correspondem a não mais que “grutas”, com o horizonte demasiado estreito do Bairro Alto, de Santa Catarina, muito longe de qualquer “Graça”.

Seja, tudo acima se refere à imagem, sobre a qual já todos conhecemos (ou deveríamos ter uma noção desse "saber) os limites intrínsecos à sua natureza de “apenas imagem”. Quanto ao abuso da palavra durante as visitas ao local, desconfiem da adjectivação utilizada pela maior parte dos agentes imobiliários. Alguns atingem o maximum ridiculus quando chegam ao ponto de anunciar como “cool” ou “cosy” buracos apenas suportáveis para ocidentais muito modernos, que utilizam a casa só para dormir ou para infelizes provindos de paisagens ainda mais terceiro-mundistas.

O óbice, para mim, começa logo ao detectar um padrão no discurso desta gente mal paga para vender quatro paredes. Há uma frase (“tudo é negociável”) que se repete por essas ou outras palavras na sua essência norte-africana. Atenuante: trata-se de um negócio. Contradição: a negociação, no meu caso avesso a qualquer regateio, nunca foi além da treta em volta de uns meros € 20. Ora bolas! Que negócio é este?

Tudo isto talvez seja natural em zonas metropolitanas, em que a maior parte das pessoas escolhe casa porque precisa de um tecto possível a um preço possível, sem grande atenção à paisagem adjacente. Aparte curioso, talvez apenas perceptível para quem já viveu em cidadezinhas e aldeias e daí mais disponível para manter o passatempo de observar os outros: a quantidade de gente que nesta cidade caminha olhando o chão. Em sítios menos povoados a percentagem de taciturnos é, creio, muito menor, tanto pela maior possibilidade de deparar com conhecidos e subjacente pressão social em cumprimentá-los, como por um casario desenhado de forma geralmente mais harmónica.

Quanto a Lisboa, exceptuando os bairros ainda típicos, a baixa pombalina e algumas zonas adjacentes, o desenho do seu casario acabou completamente desfigurado nas últimas quatro década de selvajaria imobiliária, fruto do esforço bem sucedido de empreiteiros, autarcas e munícipes adormecidos, engenheiros pouco civis e arquitectos imbecis, seguidores do péssimo exemplo gringo da doentia construção em altura, e, claro, dos banqueiros que financiaram este paraíso para tubarões e patos-bravos crentes no betão dessa infeliz ideia que ainda predomina.

Não obstante, milhares, intermináveis centenas de milhar, continuam a procurar um pouco de feliz cidade nesta paisagem cada vez mais inóspita. Quanto a mim, evito a condená-los por isso. Também eu vou fazendo o que posso. O mínimo, claro, enquanto o máximo acabaria demasiado próximo de uma empresa de demolições.

Autoria e outros dados (tags, etc)



Alguns riscos


Indícios?, por demais

um tremendo cansaço

de coisas feias, e daí

sons, diversos traços

caracteres alguns

de um rasto só


Algum tempo:


2017 Janeiro 2016 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho Maio Abril Março Fevereiro Janeiro ; 2015 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho Maio Abril Março Fevereiro Janeiro ; 2014 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho Maio Abril Março Fevereiro Janeiro; 2013 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho Maio Abril Março Fevereiro Janeiro; 2012 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho


Junho 2006/Junho 2012

(arquivos não acessíveis

via Google Chrome)


Algumas pessoas:


T ; José Carvalho da Costa, Francisco Q ; Alcino V, Vitor P ; José Carlos T, Fernando C, Eduardo F ; Paulo V, "Suf", Zé Manel, Miguel D, S, Isabel, Nancy ; Zé T, Marcelo, Faria, Eliana ; Isabel ; Ana C ; Paula, Carlos, Luís, Pedro, Sofia, Pli ; Miguel B ; professores Manuel João, Rogério, Fátima Marinho, Carlos Reis, Isabel Almeida, Paula Morão, Ivo Castro, Rita Veloso, Diana Almeida


Outros que, no exacto antípoda dos anteriores, despertam o pior de mim:


Demasiados. Não cabem aqui. É tudo gente discursivamente feia. Acendendo a TV ou ouvindo quem fora dela reproduz agendas mediáticas, entre o vómito e o tédio a lista tornar-se-ia insuportavelmente longa.


Uma chave, mais um chavão? A cultura popular do início deste séc. XXI fede !


joseqcarvalho@sapo.pt


Alguns nomes:


José Afonso ; 13th Floor Elevators, The Monks, The Sonics, The Doors, Jimi Hendrix, The Stooges, Velvet Underground, Love / Arthur Lee, Pink Floyd (1967-1972), Can, Soft Machine, King Crimson, Roxy Music; Nick Drake, Lou Reed, John Cale, Neil Young, Joni Mitchell, Led Zeppelin, Frank Zappa ; Lincoln Chase, Curtis Mayfield, Sly & The Family Stone ; The Clash, Joy Division, The Fall, Echo & The Bunnymen ; Ramones, Pere Ubu, Talking Heads, The Gun Club, Sonic Youth, Pixies, Radiohead, Tindersticks, Divine Comedy, Cornelius, Portishead, Beirut, Yo La Tengo, The Magnetic Fields, Smog / Bill Callahan, Lambchop, Califone, My Brightest Diamond, Tuneyards ; Arthur Russell, David Sylvian, Brian Eno, Scott Walker, Tom Zé, Nick Cave ; The Lounge Lizards / John Lurie, Blurt / Ted Milton, Bill Evans, Chet Baker, John Coltrane, Jimmy Smith ; Linton Kwesi Johnson, Lee "Scratch" Perry ; Jacques Brel, Tom Waits, Amália Rodrigues ; Nils Frahm, Peter Broderick, Greg Haines, Hauschka ; Franz Schubert, Franz Liszt, Eric Satie, Igor Stravinsky, György Ligeti ; Boris Berezovsky, Gina Bachauer, Ivo Pogorelich, Jascha Heifetz, David Oistrakh, Daniil Trifonov


Outros nomes:


Agustina Bessa Luís, Anna Akhmatova, António Franco Alexandre, Armando Silva Carvalho, Bob Dylan, Boris Vian, Carl Sagan, Cole Porter, Daniil Kharms, Evgeni Evtuchenko, Fernando Pessoa, George Steiner, Gonçalo M. Tavares, Guy Debord, Hans Magnus Enzensberger, Harold Bloom, Heiner Müller, João MIguel Fernandes Jorge, John Mateer, John McDowell, Jorge de Sena, José Afonso, Jürgen Habermas, Kevin Davies, Kurt Vonnegut Jr., Lêdo Ivo, Leonard Cohen, Luís de Camões, Luís Quintais, Marcel Proust, Marina Tzvietaieva, Mário Cesariny, Noam Chomsky, Ossip Mandelstam, Ray Brassier, Raymond Williams, Roland Barthes, Sá de Miranda, Safo, Sergei Yessinin, Shakespeare, Sofia M. B. Andresen, Ted Benton, Vitorino Nemésio, Vladimir Maiakovski, Wallace Stevens, Walter Benjamin, W.H. Auden, Wislawa Szymborska, Zbigniew Herbert, Zygmunt Bauman


Algum som & imagem:


Avec élégance

Crazy clown time

Danse infernale

Dark waters

Der himmel über berlin

Forever dolphin love

For Nam June Paik

Gridlocks

Happy ending

Lilac Wine

L'heure exquise

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Materials

Megalomania

Metachaos

Nascent

Orphée

Sailing days

Soliloquy about...

Solipsist

Sorry, I'm late

Submerged

Surface

Their Lullaby

The raw shark texts

Urban abstract

Unter