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De um tempo ausente (em que talvez valesse mais a pena frequentar eventos literários)

por JQ, em 20.07.15

"Sábado, 26 de Outubro de 1963, 21,45 horas, Sociedade Nacional de Belas Artes, Lisboa. Recital e Colóquio sobre a Novíssima Poesia Portuguesa. Organização de Fernando Ribeiro de Mello. Recitadores: o organizador, Norberto Barroca, Diogo Ary dos Santos e Madalena Vieira, que não compareceu por se encontrar doente. Para o colóquio tinham sido convidados, para funcionarem como orientadores críticos, David Mourão-Ferreira, presente; Alexandre Pinheiro Torres, que justificou a falta, comunicando ter de comparecer num noivado no norte do país; João Palma-Ferreira, ausente; Natália Correia, presente; Álvaro Salema, que, embora tendo prometido ir se não chovesse, não apareceu; Alexandre O’Neill, que faltou, mas apresentou atestado médico; António Quadros, que justificou a falta, informando ter de estar em Mirandela, para inaugurar uma biblioteca da Fundação Gulbenkian; Maria Teresa Horta, ausente, por guardar o leito; Gastão Cruz, ausente; Dórdio Guimarães e José Terra, presentes.

 

Estamos convencidos que o título «Novíssima Poesia Portuguesa» escondia, mal, uma intenção polémica. Doutro modo não se compreende o emparceiramento de Manuel da Fonseca com Natércia Freire, Sebastião da Gama com Natália Correia, Eugénio de Andrade com Salette Tavares, Cesariny com Couto Viana. A não ser que tenha sido a distracção que presidiu a tão inesperados acasalamentos.

 

Riscados no programa, Jorge de Sena, um poema de Cesariny, outro de António Maria Lisboa, Goulart Nogueira, João Rui de Sousa, um poema de José Carlos Ary dos Santos, outro de José Terra. Herberto Helder não foi dito, apesar de anunciado, ao que nos informaram, por o ter proibido por carta. Manuel de Castro, também incluído, ficou inexplicavelmente no silêncio.

 

O recital começou com um poema de José Gomes Ferreira, poeta invisível no programa. Seguiram-se depois 46 poemas correspondentes a 37 autores. Contrariamente ao que de início se poderia supor, a recitação atingiu bom nível […]

 

Terminado o recital, houve um intervalo. Depois, novamente Ribeiro de Mello apareceu no estrado. Vinha explicar as razões, profissionais umas, de ordem medicinal outras, porque não se encontravam presentes sete dos onze orientadores críticos convidados e que se tinham comprometido a comparecer. Fê-lo, porém, em termos irónicos, exactamente no tom de quem não acreditava nas desculpas dos ausentes, antes as considerava simples pretextos para escaparem aos debates. Quando se demorava a insinuar que talvez Pinheiro Torres não estivesse realmente num noivado no norte do país, foi interrompido por Armindo Rodrigues. O autor de «Retrato de Mulher» achava que o organizador estava a ser deselegante, quiçá grosseiro; que nada o autorizava a duvidar das razões apresentadas pelos ausentes, e que, como estava cansado, segundo afirmara duas ou três vezes, o melhor seria descansar; enfim, que para ser bonito devia ficar por ali. Ribeiro de Mello ficou por ali… no respeitante ao seu cepticismo.

 

Foi então dada a nota páulica por um jovem de «pêra» loura e programa em riste, que queria saber porque não fora incluído no programa Luís de Veiga Leitão, o autor de «Noite de Pedra», e no mesmo se podia ler o nome de Salette Tavares, «uma senhora que ninguém conhecia». Foi-lhe respondido pelo organizador que, como era de ver, não podiam fazer parte do recital todos os poetas. Mas o jovem estava possesso e insistia na sua: queria Veiga Leitão, ele próprio se oferecia para dizer Veiga Leitão. E a um gesto convidativo de Ribeiro de Mello disparou para o estrado, sob quentes aplausos da audiência. Mal, porém, dissera dois versos dum poema de Veiga Leitão, foi interrompido. Um membro da direcção da S.N.B.A. alegou que o poema não fora censurado e por isso podia trazer graves consequências. Quentes aplausos concordantes da assistência e saída melodramática pela esquerda alta do jovem de «pêra» loura. Afinal, Salette Tavares, a «senhora que ninguém conhecia», estava presente. Um senhor de «pêra» preta, que depois soubemos ser David Mourão-Ferreira, levantou-se parlamentarmente e pediu, como sinal de desagravo pela afronta de que fora vítima, uma salva de palmas para a autora de «Espelho Cego». A assistência salvou generosamente.

[…]

Entrou então de serviço um senhor de gabardine que começou a dizer que estávamos em guerra, que Portugal era vítima de uma invasão, que a Pátria estava em perigo e que, visto isso, a Pátria não podia alhear-se da vida. Este arrazoado mercenário e mentecapto não colheu Armindo Rodrigues distraído. O autor de «Voz arremessada ao caminho» levou a intervenção a sério, o que teve por consequência esmerar-se e exceder-se na resposta. Esmerou-se, porque o tal arrazoado não passava disso, e excedeu-se ao declarar que não autorizava que houvesse alguém na sala mais patriota que ele (os despropósitos que a palavra Pátria leva a cometer!).

 

E, exaltado, patriótico, larga um «por amor de Deus!», que o deixou estarrecido e que justificou titubeantemente, afirmando que era ateu, que aquela frase final só revelava o seu portuguesismo. (Várias vezes o senhor da gabardine tentou intervir, até que a assistência percebeu que ele estava ali mais a sua gabardine e nunca mais o deixou falar).

 

Urbano Tavares Rodrigues tomou a palavra para afirmar que a arte tinha de ser, era sempre humanista, interessada, embora esse interesse fosse duma maneira nas repúblicas socialistas e doutra nas democracias capitalistas; que Portugal, por estar à margem daqueles dois padrões, forçosamente exigia da arte uma terceira forma de interesse; que o poeta só era criador quando escrevia poemas.

 

Esta última afirmação causou, justificadamente, engulhos a um jovem que se levantou para perguntar se o poeta fora do momento da criação não continuaria sê-lo. Esta interrogação apontava com vigor o que devia ser o fulcro do colóquio. Natália Correia tomou a iniciativa de responder ao jovem. No entanto, em vez de aproveitar a deixa, desenvolvê-la e levá-la ao rubro, como julgamos que era o seu dever, misteriosamente limitou-se a usar um tom maternal e a dizer que sim senhor, o poeta era-o sempre.

 

Interveio ainda outro jovem, citando logo de entrada Lukacs, mas confessamos ter compreendido mal a sua exposição. Das intervenções de David Mourão-Ferreira e Salette Tavares – formalmente brilhante a do primeiro e apagada a da segunda – deduziu-se facilmente que o que interessava na Poesia era esta ser cristalizada em forma de peça literária. Do que está antes e depois do poema é melhor não falar por causa dos fantasmas.

 

Um senhor, que afinal era engenheiro e até tinha um lindo nome francês, interveio para declarar as seguintes e várias coisas importantes: que já tinha uma certa idade (via-se), era careca (via-se também), andava há uma data de anos a tentar compreender a poesia moderna (que ele designava pomposamente por abstracta) e por mais esforços dispendidos não conseguia lobrigar-lhe lógica. Armindo Rodrigues explicou-lhe o caso contando uma anedota verdadeira, passada com ele e com um amigo conhecido; rematou informando o engenheiro que havia várias lógicas.

 

Também o monárquico-católico-fascista Goulart Nogueira pediu a palavra para expor a sua tese: grande poesia maior e grande poesia menor, tese que Jorge de Sena igualmente partilha. Menos talvez por causa da tese do que pelo expositor, parte da assistência começou a abandonar a sala.

 

Entretanto fez o seu aparecimento no estrado um senhor, professor de Liceu, desembaraçado, folião, que queria saber porque, estando em letra redonda no programa «Recital e Colóquio sobre a novíssima Poesia Portuguesa», ninguém falava dos poemas ditos ali. Perguntou isto várias vezes, em vários tons, voltando-se ora para a assistência ora para David Mourão-Ferreira. Este, que o conhecia muito bem, explicou-lhe sorridentemente que sim senhor tinha razão, mas a pergunta implicava estoutra: o que é a novíssima Poesia? […]"

 

 

António José Forte, em “Uma Faca nos Dentes” (ed. 2003)

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De Anónimo a 20.07.2015 às 09:33

Um texto bem interessante, que eu não conhecia.
Ainda há dias, em conversa, afirmei que a década de 60 foi a mais dinâmica, sob vários pontos de vista (políticos, literários...), da segunda metade do séc. XX. Até por cá, as coisas mexiam bastante.
Lembro-me de recitais, "happenings" frequentes na Liv. Quadrante, à Luís Bívar. Como me recordo, na SNBA (68? 69?), de uma concorridíssima intervenção de Jorge de Sena, que passou, nessa altura, por Lisboa.
Uma boa semana!
APS
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De JQ a 20.07.2015 às 22:36

Atípico diante da escrita sobretudo poética de AJ Forte, este texto surge perto do final de "A Faca nos Dentes" quase como um apenso. Despertou-me a curiosidade e vontade de republicá-lo não só pelo humor, mas igualmente pelo breve retrato do meio literário dessa década, aparentemente mais vivo que o actual.
Respondendo ao seu testemunho desse tempo, deveria agora assinar este comentário com um pseudónimo tipo Walt Disney - " Quim Beja" -, pois então ainda andava de calções e só me restam memórias muito vagas da pobreza "franciscana" que por cá grassava.
Boa semana para si também.

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Indícios?, por demais

um tremendo cansaço

de coisas feias, e daí

sons, diversos traços

caracteres alguns

de um rasto só


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