Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Do amor (passe o atrevimento de quem não amou tanto quanto devia)

por JQ, em 13.04.14

O céu é um lugar onde nunca nada acontece

 David Byrne, 1979

  

 

Parece haver uma lei, tácita no universo conhecido e consabida por astrofísicos, escritores de ficção científica e tantos outros, que postula a certeza de que os mundos devem colidir, por só nesse atrito ocorrer a faísca possível donde podem surgir novos mundos. O mesmo, adianto, valerá para os conflitos entre pessoas ou dentro de cada um. Outro cliché? Da discussão nasce a luz. Bom, nem sempre, mas se cada ideia, pessoa ou astro ficassem quietos, cada um no conforto do seu sítio, este universo já há muito teria desaparecido. Nesse sentido, a sobrevalorizada Harmonia, se eterna, confundir-se-ia com estagnação, tendo como música de fundo uma espécie de ditame divino que nos condenasse a ouvir Yes ou Camel, Rick Wakeman ou José Cid, André Sardet ou Beach House dia após dia, até que a morte confirmasse o próprio óbito apenas devido ao seu mau gosto musical.

 

Com tudo isto, num misto de algo muito profano e um desejo de aproximação a algo minimamente sagrado que abaixo segue, apenas se pretende ilustrar como, após ter visto três dúzias de entrevistas de Derrida, senti crescer em mim a admiração pela sua postura pessoal, sem que a sua imensa tolerância servisse de impedimento, diante Derrida e de outros bem mais próximos do meu afecto, ao dever de discordar de algumas das suas opiniões.

 

 

 

Você não sabe o que é amor

Luan Santana, 2009

 

 

 

 

 

Atente-se, sem qualquer favor, na entrevista supra. Dura um pouco menos de 5 minutos e não chega a ser maçadora, creio, como tantas outras em territórios ao saber contíguos. Pode até ser divertido reparar tanto no desconforto inicial de Derrida em debitar o que for sobre o Amor, como no modo astucioso como a entrevistadora vai contornando gradualmente essa recusa até à máxima sedução (“se até Platão…”), assim induzindo o filósofo gaulês ao rascunho de um comentário sobre esse assunto nada fácil. Ele acaba por fazê-lo, debitando um raciocínio intrinsecamente correcto, e, tratando-se de um improviso, absolutamente brilhante, em torno da questão: “Amor por quem ou amor por quê?”.

 

Primeiro desabafo anti-pósmodernidade: como tantos outros, nas mais diversas áreas durante as últimas décadas, Derrida preferiu sugerir questões a fornecer respostas. Soando tal atitude como bem decente na sua evidente demonstração de humildade, cada vez mais vou/vamos esbarrando na dificuldade em distinguir, nessa rendição ao relativismo predominante, o que é preguiça intelectual, falsa modéstia ou receio de levantar demasiadas ondas. Passe o desabafo.

 

Regressando à entrevista de Derrida e à súmula “Amor por quem ou amor por quê?”: se bem que não inteiramente incorrecta, essa dúvida é apenas possivel a quem nunca amou. Quem algum dia se aproximou desse caldo de sentimentos bem mais complexo que uma sopa de pedra talvez tenha reparado que o fez não por esta qualidade ou aquele defeito da pessoa amada. Fê-lo apesar de.

 

Mesmo a afirmação, à primeira vista verosímil, de que se deixa de amar ao esbarrar nesta ou naquela característica reveladora de incompatibilidade indicia alguma ignorância do que o Amor pode ser. Um senão ou vários apenas servem de pretexto para terminar relacionamentos, tal como no início, desconhecendo ainda a diversidade de facetas do Outro, o vislumbre de sinais de natureza positiva pode despertar a curiosidade em conhecê-Lo melhor. Claro que gente de bata branca, rodeada de microscópios cada vez mais cuscos, vai sempre tentando descortinar detalhes que expliquem tudo, mas, creiam, não o conseguem inteiramente, porque o Todo, passe mais um cliché, é sempre maior do que as partes que O constituem.

                          

Reforçando o mesmo intento: pode-se perfeitamente assumir, por dentro ou publicamente, que se ama a música, as palavras e outros gestos, algumas filatelias e filosofias do Outro, mas por muito que nos agrade esta e menos aquela qualidade na pessoa amada, creiam, ninguém ama o quê, pois nenhum pormenor é bastante para justificar a dedicação ao Outro no seu todo. Neste nosso processo sobrevivente, ainda primata entre os microcóspios e telescópios que herdámos, os vestígios de amor só persistem à revelia de qualquer detalhe aparentemente mais negativo.

 

Daí decorre, para mim certo, que no Outro talvez seja possível amar sobretudo quem. Quanto à infinidade de quês que nos rodeiam, deixei de esperar deles qualquer saber. Dispenso-os na medida do seu abuso de preço e falta de apreço, sempre demasiado baratos, quando não baratas vítimas do relativismo reinante. Desisti, há muito, desse caminho aparentemente fácil. Nesse processo envelheci, é certo, mas algo de útil fui aprendendo entre tão pouco.

 

Nisso reside a principal distância entre amor e ódio, pois é perfeitamente possível detestar algum Outro por este ou aquele detalhe que, no fundo, odiamos em nós próprios. Quanto ao Amor, quando acontece, insisto, ama-se sempre quem, apesar de tantos quês.

Autoria e outros dados (tags, etc)



Alguns riscos


Indícios?, por demais

um tremendo cansaço

de coisas feias, e daí

sons, diversos traços

caracteres alguns

de um rasto só


Algum tempo:


2017 Janeiro 2016 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho Maio Abril Março Fevereiro Janeiro ; 2015 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho Maio Abril Março Fevereiro Janeiro ; 2014 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho Maio Abril Março Fevereiro Janeiro; 2013 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho Maio Abril Março Fevereiro Janeiro; 2012 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho


Junho 2006/Junho 2012

(arquivos não acessíveis

via Google Chrome)


Algumas pessoas:


T ; José Carvalho da Costa, Francisco Q ; Alcino V, Vitor P ; José Carlos T, Fernando C, Eduardo F ; Paulo V, "Suf", Zé Manel, Miguel D, S, Isabel, Nancy ; Zé T, Marcelo, Faria, Eliana ; Isabel ; Ana C ; Paula, Carlos, Luís, Pedro, Sofia, Pli ; Miguel B ; professores Manuel João, Rogério, Fátima Marinho, Carlos Reis, Isabel Almeida, Paula Morão, Ivo Castro, Rita Veloso, Diana Almeida


Outros que, no exacto antípoda dos anteriores, despertam o pior de mim:


Demasiados. Não cabem aqui. É tudo gente discursivamente feia. Acendendo a TV ou ouvindo quem fora dela reproduz agendas mediáticas, entre o vómito e o tédio a lista tornar-se-ia insuportavelmente longa.


Uma chave, mais um chavão? A cultura popular do início deste séc. XXI fede !


joseqcarvalho@sapo.pt


Alguns nomes:


José Afonso ; 13th Floor Elevators, The Monks, The Sonics, The Doors, Jimi Hendrix, The Stooges, Velvet Underground, Love / Arthur Lee, Pink Floyd (1967-1972), Can, Soft Machine, King Crimson, Roxy Music; Nick Drake, Lou Reed, John Cale, Neil Young, Joni Mitchell, Led Zeppelin, Frank Zappa ; Lincoln Chase, Curtis Mayfield, Sly & The Family Stone ; The Clash, Joy Division, The Fall, Echo & The Bunnymen ; Ramones, Pere Ubu, Talking Heads, The Gun Club, Sonic Youth, Pixies, Radiohead, Tindersticks, Divine Comedy, Cornelius, Portishead, Beirut, Yo La Tengo, The Magnetic Fields, Smog / Bill Callahan, Lambchop, Califone, My Brightest Diamond, Tuneyards ; Arthur Russell, David Sylvian, Brian Eno, Scott Walker, Tom Zé, Nick Cave ; The Lounge Lizards / John Lurie, Blurt / Ted Milton, Bill Evans, Chet Baker, John Coltrane, Jimmy Smith ; Linton Kwesi Johnson, Lee "Scratch" Perry ; Jacques Brel, Tom Waits, Amália Rodrigues ; Nils Frahm, Peter Broderick, Greg Haines, Hauschka ; Franz Schubert, Franz Liszt, Eric Satie, Igor Stravinsky, György Ligeti ; Boris Berezovsky, Gina Bachauer, Ivo Pogorelich, Jascha Heifetz, David Oistrakh, Daniil Trifonov


Outros nomes:


Agustina Bessa Luís, Anna Akhmatova, António Franco Alexandre, Armando Silva Carvalho, Bob Dylan, Boris Vian, Carl Sagan, Cole Porter, Daniil Kharms, Evgeni Evtuchenko, Fernando Pessoa, George Steiner, Gonçalo M. Tavares, Guy Debord, Hans Magnus Enzensberger, Harold Bloom, Heiner Müller, João MIguel Fernandes Jorge, John Mateer, John McDowell, Jorge de Sena, José Afonso, Jürgen Habermas, Kevin Davies, Kurt Vonnegut Jr., Lêdo Ivo, Leonard Cohen, Luís de Camões, Luís Quintais, Marcel Proust, Marina Tzvietaieva, Mário Cesariny, Noam Chomsky, Ossip Mandelstam, Ray Brassier, Raymond Williams, Roland Barthes, Sá de Miranda, Safo, Sergei Yessinin, Shakespeare, Sofia M. B. Andresen, Ted Benton, Vitorino Nemésio, Vladimir Maiakovski, Wallace Stevens, Walter Benjamin, W.H. Auden, Wislawa Szymborska, Zbigniew Herbert, Zygmunt Bauman


Algum som & imagem:


Avec élégance

Crazy clown time

Danse infernale

Dark waters

Der himmel über berlin

Forever dolphin love

For Nam June Paik

Gridlocks

Happy ending

Lilac Wine

L'heure exquise

LoopLoop

Materials

Megalomania

Metachaos

Nascent

Orphée

Sailing days

Soliloquy about...

Solipsist

Sorry, I'm late

Submerged

Surface

Their Lullaby

The raw shark texts

Urban abstract

Unter