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Entre mim e Nietzsche

por JQ, em 14.09.16

Forgive me my sadness!

 

Friedrich Nietzsche

(The Dance Song in

“Thus Spoke Zarathrusta”)

 

Simplificando “a ideia”, os gregos antigos tentaram sintetizar os principais impulsos da natureza humana entre apolíneos e dionisíacos, i.e., simplificando ainda mais, razão versus emoção, ordem/beleza versus caos/prazer. Vice-versa ou num mais viçoso verso, claro que não existe ordem sem caos e, apesar de tanto ruído, ainda é possível encontrar prazer na beleza. Adiante.

 

Por volta dos meus 18-20 anitos, deixei-me agarrar por Nietzsche. Intensivamente, li quase tudo dele e, naturalmente, depois cansei-me, não só pela sua valorização demasiado constante da vertente dionisíaca (perto do fim, chegou a assinar algumas cartas como Dionysus!) , que então até comecei a experimentar.

 

Descendo de dois pólos: um absoluto boémio e uma puritana fundamentalista, que apenas coincidiam, talvez vítimas da sua infância salazarista, num pessimismo de que ainda tento fugir. Bom, certo é que, na altura, achei que o caminho de Nietzsche, obviamente destinado ao isolamento, algo semelhante ao meu durante a adolescência, não era o mais saudável. Queria fazer amigos, namorar, cultivar o corpo, enfim, comunicar. Então, não queria terminar os meus dias sifilítico, meio doido, completamente isolado, apenas na companhia de lamentos do mundo. Até ofereci os seus livros a alguns amigos e conhecidos que, então, pareciam precisar de ultrapassar a sua aparentemente frágil auto-estima...

 

Hoje, ainda não quero terminar os meus dias sifilítico (salvo disso seja : ), meio doido, completamente isolado, apenas na companhia de lamentos do mundo, mas tenho quase a certeza de que desperdicei demasiados anos a ouvir quem quase só debitava banalidades. Hoje, sinto-me cada vez mais apolíneo. Estou farto de caos e coisas feias. Preciso de mais beleza em redor. Hoje, vai crescendo em mim a noção de que a minha progenitora, puritana fundamentalista, foi e é mais positiva e, apesar da minha iconoclastia militante, transmitiu-me mais « sinais + » do que o absoluto boémio. Adiante. Isso é problema meu e não vem agora ao caso.

 

De regresso à “dança”, suspeito que Nietzsche, em termos de relacionamentos pessoais, deve ter sido um chato do caraças (aparte desnecessário: algumas das pessoas mais interessantes que conheci eram, discursivamente, uns chatos do caraças). Chegou a escrever várias elegias a tal atitude diante da vida. Na origem, suspeito-as dirigidas a si próprio (ou ao que ele desejava ter sido) e, após publicadas, à ordem burguesa que o sufocava, talvez aos românticos herdeiros do Stürm und Drang. Aqui vão algumas, a maior parte de “Assim Falava Zaratrusta”, uma ou outra de “A Gaia Ciência” (pardon my French e também alguma preguiça, o Inglês que se segue, suponho, é demasiado simples para necessitar de tradução):

 

We should consider every day lost on which we have not danced at least once. And we should call every truth false which was not accompanied by at least one laugh.

*

Be like the wind when it rushes forth from its mountain-caves: to its own piping will it dance; the seas tremble and leap under its footsteps. That which gives wings to asses, that which milks the lionesses: Praised be that good, unruly spirit, which comes like a hurricane… Praised be this spirit of all free spirits, the laughing storm, which blows dust into the eyes of all the dark-sighted and melancholic! You higher men, the worst thing in you is that you have, none of you, learned to dance as you ought to dance — to dance beyond yourselves! What does it matter that you have failed? How many things are still possible! So learn to laugh beyond yourselves! Lift up your hearts, you good dancers, high, higher! And do not forget good laughter!

*

If they want me to believe in their God, they’ll have to sing me better songs… I would believe only in a God who could dance. And when I saw my devil I found him serious, thorough, profound, and solemn: it was the spirit of gravity - through him all things fall.

*

Only in the dance do I know how to tell the parable of the highest things.

*

And those who were seen dancing were thought to be insane by those who could not hear the music.

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De Maria Árvore a 15.09.2016 às 21:08

Se é escolha própria... não é droga. É ser-se quem é. E com toda a auto-estima como convém porque até afirmo que quem não a tem, não tem coluna vertebral. 
Na sequência dos 2 posts - este e o seguinte - só me apeteceu responder com o tema Dancemos no mundo do Sérgio Godinho, em que o primado da auto-estima mútua dança: Eu só queria dançar contigo/ sem corpo visível / dançar como amigo/se fosse possível /dois pares de sapatos/ levantando o pó /dançar como amigo só . Tanto mais que nos tempos que correm com tanta comunicação virtual é possível a dança sem mexer os pés do sítio onde se está desde que os dedos das mãos percorram um teclado ligado à net. :)
O Cesariny é que precisava de um corpo visível, do sexo como forma de resistência contra a falta de liberdade: 
(...) contra ele meu amor a invenção do teu sexo (...)/contra ele meu amor a sombra que fazemos/ no aqueduto grande do meu peito      O MAR
Hoje, podemos escolher a nossa forma de comunicar e esse é o grande milagre deste século, enquanto não perdermos a liberdade.
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De JQ a 16.09.2016 às 14:25

Caramba, comentário enorme (não no comprimento:), talvez aquele que, em mais de uma dezena de anos de bloga, melhor preencheu as minhas medidas. Muito, deveras muito obrigado.


Um único senão: segundo a minha experiência, existe mais gente digna de interesse entre as vítimas de uma baixa auto-estima do que nas "vítimas" do oposto. Falo por mim: quando "contentinho de mim mesmo" raramente de mim sai algo de jeito. Talvez algum défice na auto-estima torne as suas vítimas menos conformistas, mais exigentes consigo próprias.


As minhas desculpas pela minha aparente facilidade em encontrar "senãos" onde não deveria. Quero com isto reforçar o meu muito, deveras muito obrigado
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De Maria Árvore a 16.09.2016 às 17:21

Entendo... porém, parece-me que estamos a usar "auto-estima" com conceitos diferentes. Para alguém afirmar publicamente que não quer "dançar" precisa de muita auto-estima. Quem a tiver em baixo precisa sobretudo de "dançar" para levantar a sua auto-estima, para se sentir validado. Contudo, julgo que as dificuldades que uma pessoa encontra no decorrer da vida fazem-na pensar, ao contrário do que acontece na "vida em mar de rosas", e aí é mesmo uma mais-valia para a imaginação e para a criação blogueira. Está dito no poema do Carlos Alberto Machado: 
Não preciso que me digam que é impuro o que escrevo
vê-se pelas cicatrizes nos dedos da mão direita (a calosidade
amarelada de nicotina no dedo anelar é trabalhinho escravo)
também a espinha lixada e a falta de dentes o mostram bem
não tenho biografia não a procurem no canto mal cheiroso
no medo da noite (o catecismo não é igual para todos não é?)
a minha biografia se quiserem começa e acaba no registo civil
em mil novecentos e cinquenta e quatro também tive direito
a nascer numa geração rasca a de pais anónimos e mães solteiras
o que escrevo é impuro como os sangues menstruais e o mijo
a destilarem amoníaco a federem como as fábricas da cuf
na outra margem onde se escrevia em peles curtidas pelo silêncio
ou como o sangue coagulado dos mortos na guerra colonial
pestes é que não têm faltado na minha vida…
deambulo pelos sonhos onde me perco extenuado e amanheço
quase sucumbindo ao ar excessivo que me invade os pulmões
desremelo os olhos e a esbracejar inauguro o dia saído da noite
onde se pesca palavras e outros excrementos da alma.
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De JQ a 19.09.2016 às 13:39

Chiça! Conhecia outros de C.A. Machado, mas esse não. É brilhante. Deu-me ganas de subscrever o final:
deambulo pelos sonhos onde me perco extenuado e amanheço
quase sucumbindo ao ar excessivo que me invade os pulmões
desremelo os olhos e a esbracejar inauguro o dia saído da noite
onde se pesca palavras e outros excrementos da alma.

Sei bem que, frequentemente, não consigo evitar a partilha de excrementos de mi alma. Se, de quando em vez, alguém por aqui pescasse algumas palavras de jeito, talvez pudesse dormir menos "extenuado".
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De Maria Árvore a 19.09.2016 às 20:56

Como o CAM tem muitas palavras de jeito e, para não referir que ele tem conta no facecoiso é sempre possível ler o autor a partir do google: https://www.google.pt/webhp?sourceid=chrome-instant&ion=1&espv=2&ie=UTF-8#q=carlos%20alberto%20machado ... :)
Mas como quase toda a poesia do CAM são excrementos da alma - na dramaturgia já não é tanto assim - fica mais um:
A natureza em geral enfada-me com os seus fins de tarde melífluos 
como aqueles no atlântico em frente ao convento de são francisco 
onde só falta a santinha sob os últimos raios de sol entre as nuvens 
por muito menos que isto já se escreveu muita poética e comadres 
do mesmo santo ofício crítico se exauriram em sangues literários 
e não é pois de espantar que versos com estes congreguem contra eles 
as várias matilhas que salivam nos engenhos de mal-dizer – onde  
o silêncio enraivecido de alguns amamenta úlceras e apoplexias 
a história está a abarrotar de cobardes e assassinos 
poderá titular-se assim o primeiro capítulo 

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Alguns riscos


Indícios?, por demais

um tremendo cansaço

de coisas feias, e daí

sons, diversos traços

caracteres alguns

de um rasto só


Algum tempo:


2017 Janeiro 2016 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho Maio Abril Março Fevereiro Janeiro ; 2015 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho Maio Abril Março Fevereiro Janeiro ; 2014 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho Maio Abril Março Fevereiro Janeiro; 2013 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho Maio Abril Março Fevereiro Janeiro; 2012 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho


Junho 2006/Junho 2012

(arquivos não acessíveis

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Algumas pessoas:


T ; José Carvalho da Costa, Francisco Q ; Alcino V, Vitor P ; José Carlos T, Fernando C, Eduardo F ; Paulo V, "Suf", Zé Manel, Miguel D, S, Isabel, Nancy ; Zé T, Marcelo, Faria, Eliana ; Isabel ; Ana C ; Paula, Carlos, Luís, Pedro, Sofia, Pli ; Miguel B ; professores Manuel João, Rogério, Fátima Marinho, Carlos Reis, Isabel Almeida, Paula Morão, Ivo Castro, Rita Veloso, Diana Almeida


Outros que, no exacto antípoda dos anteriores, despertam o pior de mim:


Demasiados. Não cabem aqui. É tudo gente discursivamente feia. Acendendo a TV ou ouvindo quem fora dela reproduz agendas mediáticas, entre o vómito e o tédio a lista tornar-se-ia insuportavelmente longa.


Uma chave, mais um chavão? A cultura popular do início deste séc. XXI fede !


joseqcarvalho@sapo.pt


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