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História ( = moral + zoologia)

por JQ, em 16.05.16

Ontem à noite, aconteceu-me um raro momento televisivo. Enquanto uma infinidade de canais repetia a felicidade ululante de fanáticos da bola, tive a sorte de rever, na RTP Memória, um dos mais belos momentos da cinematografia norte-americana. Detalhes de sonhos da minha infância, despoletados por esse filme, ficam para depois.

 

Ei!, já fui jovem, daí algures entre o desconfiado e o irreverente, mas, agora, já quase nada mantenho contra a felicidade alheia; seja em estádios, contemporâneos templos e supermercados, capelas para escravos submissos diante da sua circunstância, cada um procura o que sente precisar e, quando o encontra, quem sou para colorir o meu/seu/nosso presente de negro e cinzas? Absolutamente ninguém.

 

É de supor que isso seja “democrático”. Eu já nem sequer suponho. Eu acredito “nisso”, mas, ontem, srs. decisores da programação televisiva, esquecendo o tempo excessivo… chiça!, quantas horas ininterruptas serão bastantes para repetir uma ideia, a vossa ideia do que a informação deve ser?

 

Ontem durou a tarde e a noite, até às não sei quantas da madrugada. Foda-se! Que nojo: incessantes repetições do mesmo, tão igual ao Nada que por dentro vos corrompe e vos leva a corromper os outros. Esse chorudo salário compensa tamanho vazio que de vós ressoa?

 

Sei lá eu, metade, ou isso, já não daria para pagar os melhores colégios, universidades norte-americanas, o melhor futuro para a vossa descendência? Claro que daria e claro que, nisto, me esqueço da sempre actual vertigem do sucesso a qualquer preço. Sim, preconceitos morais, ainda e talvez sempre, fora de prazo.

 

Um detalhe não exactamente despiciendo: na minha juventude, as fichas técnicas no final de cada programa apenas registavam o autor e demais responsáveis por cada programa televisivo. No último par de décadas, na ficha técnica de todos surge a hierarquia: director de programas, de informação, ou o que for, o secretário e o jardineiro da direcção, só depois seguida dos serviçais autores de cada um. Apenas um sinal da crescente subserviência dos autores diante das chefias da “sua redacção”?

 

Diante disso? Sim, talvez a maior parte dos espectadores não perca tempo com a noção de como a informação actual é produzida, versus um crescente número de pessoas que pressente já não valer a pena acreditar em vós, gente paga para des/in/formar, rendidos à bosta informativa que nos vendem, só para garantirem um salário mensal. Sim, no Ocidente, na metade Norte do planeta, mas não só, parecendo que não, este é um processo crescente.

 

Por esse vosso caminho, desprezíveis decisores da consciência mais colectiva, isto, qualquer dia, vai acabar outra vez bem mal: em Trump’s e Le Pen’s, ou gente ainda pior, a leste e a oeste, ocidentais e orientais, falos de um costume, história antiga, merecedora da etiqueta "fora do prazo de validade". Tentem cruzar o cinismo imanente dos "factos" e a pura sensatez herdada da maior parte das vossas mães. Quem vencerá esse desafio? Bom, cada um decidirá por si.

 

Após esta, por demais evidente bosta, a que chamam "real", mesmo que só "informativo", que quase todos temos contribuído para criar ou permitir, e os milhões que, receio, irão ser sacrificados em prol dessa irresponsabilidade, uma boa parte de nós vai voltar a ganhar juízo.

 

A pior parte de nós, durante algum tempo sempre curto, diante de horrores demasiado próximos, contém-se e até aplaude “bondades colectivas” (o pós-2ª guerra mundial, o "estado-providência", a compaixão pelos mais desprotegidos, etc.). Balelas, sei-o bem, ou quase. Logo que a sempre parca memória permita este jogo tristemente animal, entre presa e predador, entre bem-sucedidos (?) e fracassados (?), vai sempre voltar. Lamento, mas vai (a maior de nós não passa de irregulares filhos da... esquecidos da mãe/Mãe que tiveram a sorte de ter).

 

Mais não resta senão esperar ou, melhor, fazer por isso, para que, entre cada salto e recuo desta animal história, algo persista para além desse pior de todos nós.

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De Anónimo a 16.05.2016 às 21:17

Eu também estou em black-out televisivo, desde ontem. E este inferno chunga vai prolongar-se por dias... E ainda se falava nos "3 efes" salazarentos - agora é muito pior.
Mas vim dizer-lhe que o vídeo da Vevo, que pôs, é uma delícia: fartei-me de rir. Obrigado!
APS
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De JQ a 16.05.2016 às 21:32

Isto pode soar como simples treta. De nada me adianta assegurá-lo. Basta que alguém tenha entendido. Por isso grato, APS.

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Alguns riscos


Indícios?, por demais

um tremendo cansaço

de coisas feias, e daí

sons, diversos traços

caracteres alguns

de um rasto só


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