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Lisboa, às vezes...

por JQ, em 03.04.17

Parecendo que sim, este não vai ser mais “um post do meu umbigo”. Os pormenores pessoais limitam-se à pretensão de iludir a aparente superficialidade dos temas que mais me interessam: a Moral e a Estética (sim, logo à partida, dois territórios sempre em guerra). Adiante.

 

Já não cortava o cabelo desde Dezembro. A barba? Desde Vila do Conde, em Janeiro. Quase todas as manhãs um colega mais divertido cumprimentava-me com um “Olá, Moisés”. Outra, mais arisca (uma cinquentona que faz impossíveis para parecer mais jovem), perguntou-me há uns dias: “Isso é para durar? Você nem parece um funcionário público”. Apeteceu-me responder: “Oh que carago, o que raio tem você a ver com isso?”, mas Lisboa e a passagem do Tempo têm-me levado a ser mais condescendente. Só lhe disse: “Azar o seu. Fui escolhido num casting para um filme bíblico e agora não me deixam cortar os pêlos”. Claro que não entendeu a piadola sem graça. Mais valia tê-la mandado para uma parte feia qualquer. Enfim, além de uma reforma antecipada, ela não merece nenhuma maldade minha.

 

O meu barbeiro local, a 200 mts de casa, também faleceu em Janeiro. Um velhote exemplar, nada italiano, demasiado reservado até para o meu gosto. Bastou dizer-lhe uma vez o que queria: o mais banal possível; risca ao lado meio discreta; nada de poupas à frente nem demasiado em cima; atrás e dos lados vá desbastando o mais que puder. Para mim, funcionava durante 3 meses e isso para mim bastava.

 

Cheguei a experimentar um outro, 1 km mais abaixo. Um tipo talvez da minha idade, com uma grande poupa e suíças recortadas em bico, próximas do péssimo gosto capilar de Cristiano Ronaldo. Tudo bem, cada um tem o espelho que merece, mas o estupor da criatura, talvez possessa por pruridos artísticos demasiado pimba, quando eu lhe dizia “Corte mais assim ou assado”, demasiado amável respondia: “Mi disculpe, viu, eu é que sei o que lhe fica milhor”. Chiça, fervia por dentro ao deduzir que iria precisar de outro corte em 1 ou 2 meses, mas emudecia, pois de nada adianta encetar discussões com “artistas” desprovidos de dúvidas sobre a sua “arte”. Nunca lá mais voltei. Aquele “chapa-cara-viu” perdeu um cliente. Nada de grave nisso.

 

Uma breve explicação. De onde raio provêm as minhas “certezas” sobre o meu cabelinho e a minha aparência, que desejo o menos exuberantes possíveis? Em mil, nove e oitenta e poucos, atravessei uma (ainda bem) breve fase pseudo-punk ou pseudo-pós-punk. A sério que, nessa altura, não havia um barbeiro decente em VC e os do Porto cobravam escudos que eu preferia utilizar em “estéticas, hum, mais interiores”. Daí que, durante mais de vinte anos, fui aprendendo a aparar o meu próprio cabelo. As primeiras vezes foram catastróficas. De início, sobretudo atrás, algumas peladas embaraçosas. Quando fui viver com T. a sua colaboração no corte e a sua natural atenção aos detalhes compensou a minha ausência de retrovisores.

 

Já em Oeiras, passei a ir um salão próximo de casa, não demasiado caro (caramba, falo de pêlos, nada que mereça mais do que uma dúzia de euros). Dois homens e duas mulheres. Elas, não só nesta profissão, quase sempre bem mais competentes. A mais reservada, com feições duras, quase masculinas, era a minha preferida. Na outra, igualmente eficaz, só encontrei não um defeito, mas um feitio que minimamente me desagradou. Só à 3ª sessão se apercebeu da minha preferência pelo silêncio. Até aí (coitada, sou um monstro, ela só tentava comunicar), experimentou diálogos sobre temas para mim impossíveis: futebol, arbitragens, carros, multas de trânsito, aparentes excessos de zelo policiais. Claro que eu nada respondia. Tudo menos irritar uma mulher com uma navalha no nosso pescoço.

 

Hoje, finalmente, fui cortar barba e cabelo. Descobri na net uma barbearia a cerca de 2 kms de casa. Cheguei lá cerca das 17h00. Saí um par de horas depois. Mais de uma hora de espera, mas não me arrependi. Dois jovens barbudos irrepreensivelmente simpáticos (um com vinte e poucos, mais calado, e o dono, uma jóia extrovertida, talvez com trinta e poucos). Fiquei deveras bem impressionado com «a boa onda» de ambos. O à-vontade sem aspas com que sobretudo o dono comunicava com os clientes e com a toda a gente (desde crianças a velhotes), que passava à sua porta, derreteram-me. Vida de bairro, suponho. Mesmo com uma tesoura próxima das orelhas ou uma navalha no pescoço, foi-me impossível não sorrir nalguns momentos mais bem-dispostos. Eles repararam e meteram-se comigo. Adorei. Nem parecia a pior Lisboa que eu conheço do meu trabalho. Fim de tarde perfeito na barbearia do Zé Nunes, em Alcântara.

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Alguns riscos


Indícios?, por demais

um tremendo cansaço

de coisas feias, e daí

sons, diversos traços

caracteres alguns

de um rasto só


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Demasiados. Não cabem aqui. É tudo gente discursivamente feia. Acendendo a TV ou ouvindo quem fora dela reproduz agendas mediáticas, entre o vómito e o tédio a lista tornar-se-ia insuportavelmente longa.


Uma chave, mais um chavão? A cultura popular do início deste séc. XXI fede !


joseqcarvalho@sapo.pt


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