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"The Night I Heard Caruso Sing" (sobre um momento, já não sei bem quando, em que desisti da maior parte do tal "pop-rock")

por JQ, em 07.10.15

Na viragem da década de 70 para a de 80 do século passado tive a fortuna de viver próximo de um par de irmãos que, com a maior generosidade, partilhavam discos, jornais e revistas que, então, não abundavam por cá. Entre os jornais, os britânicos “Melody Maker” e “New Musical Express”(NME): no primeiro?, uma ponte entre “o antes e o depois” de 1977; no segundo?, como se 1977 fosse o início do “futuro”, como se nada do que ficou para trás valesse a pena. Ei!, demorei quase uma década para descobrir que "talvez não fosse bem assim..."

 

Também naturalmente, dada a minha púbere idade, senti-me mais próximo do NME. Neste descobri três ou quatro articulistas mais “identificáveis” com o meu próprio défice de maturidade. Entre eles, Paul Morley. Este denotava, então, um misto de irreverência / frescura aparente + ironia / cepticismo = ao vácuo que desde então, não apenas na crítica musical, não mais deixou de crescer como um eucalipto.

 

A verdade é que, não só em termos musicais, demorei um ‘ror de tempo até conseguir distinguir a irreverência da superficialidade, a mera substância do aborrecimento, até regressar à quase certeza de que uma obra de arte, uma criação qualquer, para escapar às ratoeiras do Tempo, deve sempre tentar fundir forma e substância.

 

Também naturalmente, perdi o rasto de Paul Morley nas últimas décadas. Qual não foi o horrível esgar irónico das minhas sobrancelhas – eu que nasci depois dele e realmente não privei com o meu Tempo nem com as celebridades do "meu minúsculo tempo" – ao esbarrar com uma sua crónica de Setembro de 2014, no The Guardian.

 

Acredite-se: é bem raro ouvi-los em casa; só me vou servindo aqui de vídeos do meu passado/presente pop-rock, porque tenho essas memórias ainda dentro de mim, e porque, mais do que a quase sempre mais abstracta música erudita, os nomes das músicas, alguns pares de versos do pop-rock, pela sua natureza mais concreta ou imediata, vão ilustrando melhor algumas ideias, que me parecem úteis nesta comunicação virtual de mim para comigo e poucos mais.

 

Não se imagine quantas vezes, nas últimas décadas, evitei vergastar “ocorrências pop-rock-alternativas”, quer nacionais quer anglo-americanas. Um só exemplo? Os XX, de que tanto gostei no seu 1º trabalho, mas, não tendo nascido ontem, ainda consigo distinguir quem tem “dedos” e quem melhor disfarça essa ausência. Posso sempre errar, claro, mas sinto-me capaz de apostar que nessa banda faltam alguns “dedos” para continuarem vivos/criativos daqui por diante (nisto espero errar).

 

Pela mesma razão, por uma menor “ordem de ideias”, tenho evitado aqui opinar sobre bandas nacionais de “pop-rock-alternativo”. Já não recordo onde, mas, há uns anos, num sítio qualquer, alguém valorizou uma sonoridade assumidamente “pimba” diante do folclore “indie”, que ainda seduz alguns “marginais esclarecidos”. Nada mais próximo do meu acordo.

 

Apenas evito criticar quem escolhe ir por aí, porque não devo. Neste país, já é tão difícil ser músico; erudito ou pop-rock-pimba, é um desafio do caraças; quem não provêm de famílias generosas talvez esteja condenado, ao fim de um par de anos, a vestir o fato, talvez já sem gravata, o uniforme de uma profissão, cujo aborrecimento ainda não criou alguns novos adjectivos que da Morte ainda derivam. Só por isso evito dizer o que penso sobre algumas bandas do tal “pop-rock alternativo”. A sério, espero que consigam viver da vossa música, seja ela qual for, da qual, da maior parte, já não consigo gostar.

 

Por candura, evite-se especular sobre o peso que as rugas e “as brancas” não só capilares (sim, o Vácuo na sua natureza mais social ou mais individual), exercem no gradual envelhecimento de cada um. Moral e ideologicamente, pouco mudei desde a juventude. Estética e musicalmente? Oh, tanto! Bom, chega de treta. Permita-se que o tal Morley, pelas suas próprias palavras, repita o que deveras pensando vou:

 

 

The Night I Heard Caruso Sing, Everything But The Girl, 1988 

 

"During the 1970s and 80s, I mostly listened to pop and rock music, when even the likes of Captain Beefheart, Henry Cow and Popul Vuh were filed under pop. However far out I went as a listener, though, classical music seemed connected to a dreary sense of uninspiring worthiness that was fixed inside an ideologically suspect status quo, lacking the exhilarating suggestion of new beginnings, a pulsating sense of an exciting, mind-expanding tomorrow. There was something monstrous about it, as if in its world there were lumbering dinosaurs and toothless dragons, refusing to accept they were extinct. Next to Iggy and the Stooges and the Velvets, it sounded frail; next to Buzzcocks and Public Image, it sounded pompous. While I wrote for the NME between 1976 and 1984, interviewing stars from Lou Reed and John Lydon to Sting and Mick Jagger, I didn’t think about classical music – it was from the past, back when the past stayed where it was and wasn’t as easy to access as it is now.

[…]

I now listen to much more classical music than I do pop or rock and on the surface that might seem like a classic, cliched, late-life move into a conservative, grown-up and increasingly remote world. For me, though, it has been more a move to where the provocative, thrilling and transformative ideas are, mainly because modern pop and rock has become the status quo.

 

If you are going to go back to the 50s, 60s, 70s and 80s to find music that still sounds new and challenging – because then it was an actual risk to look and sound a certain way, whereas now it is the norm – you might as well go even further back in time, to the beginning of the 20th century, to the 17th, 18th, 19th centuries. Now, with all music available instantly, and pop more a nostalgic, preservative practice rather than one anticipating and demanding change, classical music comes to fresh, forward-looking life.

 

The alluring, addictive sound of pop does still evolve, but what is sung about remains more or less the same; the poses, controversies and costumes repetitive and derivative. It is machines that are now the new pop stars, the performers and singers like travelling sales workers whose ultimate job is to market phones, tablets, consoles, films, brands and safely maintain the illusion that the world is just as it was when there was vinyl and the constant, frantic turnover of talent, genre and style. There is today a tremendous amount of sentimentality in making it seem as though things are as they once were, a desperate future-fearing rearrangement of components that were hip 40 years ago. But pop and rock belongs at the end of the 20th century, in a structured, ordered world that has now fallen apart.

 

For me, pop music is now a form of skilfully engineered product design, the performers little but entertainment goods, and that is how they should be reviewed and categorised. The current pop singers are geniuses of self-promotion, but not, as such, musicians expressing glamorous ideas.

 

Most rock is now best termed trad. I like a bit of product design, even the odd slab of trad, and have not turned my back completely on entertainment goods, but when it comes to music and working out what music is for, when it comes to thinking about music as a metaphor for life itself, what tends to be described as classical music seems more relevant to the future.

 

Once you make it through the formalities of classical music, those intimidating barriers of entry, there is the underestimated raw power of its acoustic sound and an endless supply of glorious, revolutionary music, all easily accessed as if it is happening now.

 

Now that all music is about the past, and about a curation of taste into playlists, now that fashions and musical progress have collapsed, discernment wiped out, classical music takes a new place in time, not old or defunct, but part of the current choice. It is as relevant as any music, now that music is one big gathering of sound perpetually streaming into the world. If you are interested in music that helps us adapt to new ideas, to fundamental change, which broadcasts different, special ways of thinking and warns us about those who loathe forms of thinking that are not the same as theirs, classical is for you.

[…]

Until recently, the “classical” music that interested me was there in the ragged, undefined borders close to where experimental and conceptual rock music drifted, mingling with avant-garde techniques. There didn’t seem too much of a leap between the noise and structures of Stockhausen and Faust, Reich and Eno, Varèse and Zappa. The big, marbled names such as Mozart, Brahms and Beethoven seemed far away from urgent, modern life and were all about death, dying and mourning. They were also co-opted and corrupted by an establishment coldly buying up culture to protect their narrow values, as though beauty could be owned and radicalism neutralised.

 

But because it is now technologically possible to get to music that once seemed the other side of the universe, and gain unfiltered understanding, I can enjoy Mozart in much the same way as I enjoy Bob Dylan, Neil Young, Miles Davis and Ornette Coleman – as a great, powerfully active mind moving across the uncanny, insanely absurd vastness of the cosmos, revealing and inventing itself and, therefore, reality around it, through the uncompromising, ongoing strangeness of music.

 

Once you appreciate that the transcendent, freakish otherness of Mozart makes him as modern and subversive as any artist, as startling as any surrealist, you could spend all of your time patrolling his compositions and finding new places to start. […] From there, you can head in a thousand different Mozart directions, and a million other directions that are as likely to lead you to Alice Coltrane and Nina Simone as Iannis Xenakis and John Luther Adams.

 

The great thing about the way we can now access music is how quickly you can move from one time and place to another, which really suits the hundreds of years of classical music and the way it moves in all directions at once: all those composers, conductors, orchestras, ensembles, versions, repertories, programmes, voices and connections can now be held more or less in one place and, astonishingly, inside your phone.

 

You can call Schubert, Stravinsky, Bartok, Lutoslawski and they get right back to you. If you find one piece of classical music you like, you can very quickly move out and about into a world that once seemed hermetically sealed off and controlled by mean, dismal and/or arcane forces. You can make your own way into a world that is new because it is new to you; a collection of responsive, connected and mutinous individuals in their own amazing world; a vital representation of spontaneous thought.

[…]

Classical music is not all big, mighty orchestras and epic, overpowering, bloody-minded symphonies, or tarted-up operatic fussiness; it is also filled with ravishing intimacy, the small, constantly varied combinations of instruments and exquisite, ever-surprising solo recitals."

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Alguns riscos


Indícios?, por demais

um tremendo cansaço

de coisas feias, e daí

sons, diversos traços

caracteres alguns

de um rasto só


Algum tempo:


2017 Janeiro 2016 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho Maio Abril Março Fevereiro Janeiro ; 2015 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho Maio Abril Março Fevereiro Janeiro ; 2014 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho Maio Abril Março Fevereiro Janeiro; 2013 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho Maio Abril Março Fevereiro Janeiro; 2012 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho


Junho 2006/Junho 2012

(arquivos não acessíveis

via Google Chrome)


Algumas pessoas:


T ; José Carvalho da Costa, Francisco Q ; Alcino V, Vitor P ; José Carlos T, Fernando C, Eduardo F ; Paulo V, "Suf", Zé Manel, Miguel D, S, Isabel, Nancy ; Zé T, Marcelo, Faria, Eliana ; Isabel ; Ana C ; Paula, Carlos, Luís, Pedro, Sofia, Pli ; Miguel B ; professores Manuel João, Rogério, Fátima Marinho, Carlos Reis, Isabel Almeida, Paula Morão, Ivo Castro, Rita Veloso, Diana Almeida


Outros que, no exacto antípoda dos anteriores, despertam o pior de mim:


Demasiados. Não cabem aqui. É tudo gente discursivamente feia. Acendendo a TV ou ouvindo quem fora dela reproduz agendas mediáticas, entre o vómito e o tédio a lista tornar-se-ia insuportavelmente longa.


Uma chave, mais um chavão? A cultura popular do início deste séc. XXI fede !


joseqcarvalho@sapo.pt


Alguns nomes:


José Afonso ; 13th Floor Elevators, The Monks, The Sonics, The Doors, Jimi Hendrix, The Stooges, Velvet Underground, Love / Arthur Lee, Pink Floyd (1967-1972), Can, Soft Machine, King Crimson, Roxy Music; Nick Drake, Lou Reed, John Cale, Neil Young, Joni Mitchell, Led Zeppelin, Frank Zappa ; Lincoln Chase, Curtis Mayfield, Sly & The Family Stone ; The Clash, Joy Division, The Fall, Echo & The Bunnymen ; Ramones, Pere Ubu, Talking Heads, The Gun Club, Sonic Youth, Pixies, Radiohead, Tindersticks, Divine Comedy, Cornelius, Portishead, Beirut, Yo La Tengo, The Magnetic Fields, Smog / Bill Callahan, Lambchop, Califone, My Brightest Diamond, Tuneyards ; Arthur Russell, David Sylvian, Brian Eno, Scott Walker, Tom Zé, Nick Cave ; The Lounge Lizards / John Lurie, Blurt / Ted Milton, Bill Evans, Chet Baker, John Coltrane, Jimmy Smith ; Linton Kwesi Johnson, Lee "Scratch" Perry ; Jacques Brel, Tom Waits, Amália Rodrigues ; Nils Frahm, Peter Broderick, Greg Haines, Hauschka ; Franz Schubert, Franz Liszt, Eric Satie, Igor Stravinsky, György Ligeti ; Boris Berezovsky, Gina Bachauer, Ivo Pogorelich, Jascha Heifetz, David Oistrakh, Daniil Trifonov


Outros nomes:


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The raw shark texts

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