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O que, a sério, do mais fundo do meu âmago / estômago, algo indeciso entre uma natureza cruel e uma compaixão adquirida, penso deste mundo

por JQ, em 12.02.16

Omnívoro, como (em) quase tudo. Lamento, mas, a sério, ainda gosto de comer. Há uns milhares de anos, disseram-me para pulular e ainda hoje poluo e extermino  outras espécies. Péssimo? Sou bem pior do que péssimo. Não passo de um predador com remorsos ocasionais. O meu corpo faz-me sentir apetites ferozmente específicos, talvez semelhantes aos das grávidas humanas.

 

Costuma dizer-me, em cores intensamente claras, quando precisa de carnes vermelhas ou mais pálidas, plantas verdes ou alaranjadas, crus ou cozidos, peixes não demasiados escuros e frutas desta ou daquela cor. Satisfeito o seu capricho, invade-me de morfinas endócrinas, adormecendo as minha piores noções de culpa .

 

Discretamente grato, oferece-me sestas a qualquer hora do dia e, sem artifícios da química farmacêutica, resistência a 99% das gripes e demais agressões bacterianas. Chego a ouvi-lo dizer que evite qualquer menu que contenha a palavra “gourmet”. Traduz-me esse horrendo adjectivo com “fome de estética”, “o fígado cor de cinza, que carregas no cimo dos ombros, até pode soar snob, mas o teu estômago não é”, “dá-me o que peço e raramente adoecerás”.

 

Talvez não haja fuga possível. Anteontem, no Metro de Lisboa, na ausência de lugar mais discreto, sentei-me vizinho a três jovenzitas. Por acaso, nenhuma delas conversava à distância. Apenas comparavam “êxitos” da noite de Carnaval. Y dizia: “ontem comi X, muito ingénuo, não sabia mexer-se, acho que perdeu a virgindade comigo”, Z dizia: ”eu comi W, ganda cromo, tempo perdido, não me vim nem uma vez”, A dizia “deitei-me com B e C, pilas moles, não consegui comer nenhum deles, suspeito que preferiam que eu não estivesse ali”. Chiça, deveria ter apanhado um táxi!

 

Mais do que os inumeráveis sítios e programas televisivos sobre gastronomia, o sobre-utilizado verbo «comer» coloriu-me a cara algures entre o vermelho embaraço e um lívido desconforto. Atenuante: dou de barato que os filhos e filhas da minha geração têm condições de ser sexualmente mais felizes do que os seus pais e avós. Ainda bem. Os pudores das gerações anteriores quase nunca resultaram saudáveis. O meu problema reside no abuso da ideia-palavra «comer». Contra esse conceito, contra mim e contra-mundo, articulo meia dúzia e meia de semi-disparates:

 

1. Já me deixei conduzir um par de vezes a restaurantes vegetarianos. Julguei que estava a comer palha.

 

2. T. convenceu-me, uma vez, a confeccionar uma feijoada com tofu no lugar das carnes. Juraria que comi borracha.

 

3. Sim, ainda como animais mortos por outros. Oh, tão hipócrita, se tivesse de matá-los, passaria fome e, no segundo seguinte, cairia redondo e inane num deserto, imaginando que todos os vegetais e até minerais possuem uma vida própria, a qual eu não tenho direito de tirar.

 

4. Se, por absurdo, antes de "Adão e Eva" me tivessem perguntado como deveria ser «o sexo ideal», acho que nunca desenharia um relacionamento físico em que as fontes de prazer ou reprodução fossem, simultaneamente, um sistema de esgotos, com a imensa quantidade de doenças possíveis nesse meio. Sim,  juvenis e velhotes incautos, o embaraço dos preservativos tornar-se-ia desnecessário.

 

5. Em «Cocoon», filme bem mauzinho de 1985, há uma cena de sexo/amor entre um terrestre e uma alienígena deveras bonita. A penetração não foi exactamente física. Foi quase eléctrica. Uma belíssima troca de luz e calor entre dois corpos emissores-receptores, que, imagino, talvez só quem já injectou heroína (eu nunca me atrevi, lamento) terá algum dia pressentido.

 

6. Custa-me entender como alguma, sempre possível, entidade superior (omni-sciente-potente-presente), que ame quem criou, não tenha configurado outra forma mais bela e digna de prazer e reprodução.

 

7. Desta forma, quase tudo resulta quase feio. Perdoe-se-me a arrogância de quem ainda caminha a duas patas, polegares oponíveis e não sei mais o quê, mas ordenar um ou vários universos como pirâmides, meras cadeias alimentares, em que os de cima se alimentam dos de baixo e assim sucessivamente, soa-me como ideia bem pobre. A sério que soa.

 

8. Talvez esteja errado, lamento, talvez subesista por aqui algo mais profundo que ainda desconheço. Por mais que me esforce - a sério, entre os microscópios e telescópios passados, presentes e talvez futuros, pouco mais tenho feito -, permaneço distante de alguma noção do Todo.

 

9. Apesar de tanta dúvida e demasiados «nãos», creio que, à partida, qualquer ser merece mais do que um projecto bem triste, condenado ao fracasso, como ideal de vida.

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Alguns riscos


Indícios?, por demais

um tremendo cansaço

de coisas feias, e daí

sons, diversos traços

caracteres alguns

de um rasto só


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Demasiados. Não cabem aqui. É tudo gente discursivamente feia. Acendendo a TV ou ouvindo quem fora dela reproduz agendas mediáticas, entre o vómito e o tédio a lista tornar-se-ia insuportavelmente longa.


Uma chave, mais um chavão? A cultura popular do início deste séc. XXI fede !


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