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O que poderá ser considerado "clássico" hoje em dia (uma salvaguarda contra o vazio?)

por JQ, em 23.10.15

“ […] O que é um «clássico»? Qual a força motriz da sua persistência ao longo dos tempos, através das línguas e das sociedades em constante transformação? O que autoriza as batidas da bengala branca do cego Homero na Dublin de Joyce?

Eu defino um clássico, seja na literatura, na música, nas artes ou na filosofia, como uma forma significante que nos «lê». Lê-nos mais do que nós o lemos (ouvimos, percepcionamos). Não há nada de paradoxal, muito menos de místico, nesta definição. De cada vez que entramos nele, o clássico questiona-nos. Desafia os recursos da nossa consciência e do nosso intelecto, da mente e do corpo (grande parte da resposta estética primária, e até da intelectual, é física), O clássico perguntar-nos-á: «compreendeste?», «re-imaginaste com responsividade?»

[…]

Eu defino o clássico como aquilo em redor do qual esse espaço é eternamente profícuo. Exige-nos que tentemos mais uma vez: Faz com as nossas malformações de leitura, as nossas parcialidades e falhas de compreensão não sejam um caos relativista, um «vale tudo», mas um aprofundamento. As interpretações válidas, a crítica quer que deve ser tomada a sério, são aquelas que tornam visíveis as suas limitações e os seus fracassos. Por sua vez, esta visibilidade contribui para que se torne manifesta a inexauribilidade do objecto. A Sarça ardia com mais fulgor justamente porque o seu intérprete não se podia aproximar demasiado dela.

[…]

Kafka proclamou, com a radicalidade que lhe é característica, que não precisamos de perder tempo com os livros que não se abatem sobre nós como uma machada de alpinista, despedaçando aquilo que está congelado dentro dos nossos crânios e espíritos. Os seus próprios escritos justificam este absolutismo. Colocando a questão de um modo mais tranquilo: o grande texto, obra de arte ou composição musical, as «novidades que permanecem novas» (Ezra Pound), não se limitam a pedir uma recepção compreensiva. Exigem reacção. Pedem-nos uma «acção nova»

[…]

Normalmente, o processo de mudança é gradual. Quase que imperceptivelmente, começamos a reparar que o encontro com o texto modificou a nossa experiência de textos anteriores; que já não observamos como dantes objectos ou pinturas conhecidas; que a música tem outro som. Proust é a insuperável testemunha desses terramotos interiores. Se existir em nós disponibilidade espaço suficiente para a maturação, essas transformações na audição, visão e cognição, essas nova aquisições da memória e da aspiração, traduzir-se-ão em acção. O atributo e paradoxo central do clássico residem no facto de os seus mandamentos serem libertadores. O fulcro da resposta, da reacção, é feito de liberdade compulsiva.

[…]

Os custos (lá voltarei) desta prematura incisão do clássico na minha existência têm sido consideráveis. Na música, os meus prazeres incluem efectivamente o ultramoderno, o contemporâneo. As artes mais experimentais e avant-garde – os vitelos esquartejados, os tijolos no chão de museu – deixam-me indiferente. O papel cardinal do efémero, do populista, em media como a fotografia da nossa cultura passou-me completamente ao lado. Agrada-me, ainda que não a tenha propriamente interiorizado, a autoridade do cinema – possivelmente a grande forma do séc. XX. Todavia, estas miopias radicam numa malaise muito maior. Tendo sido instruído desde tão jovem e tão insistentemente na adoração (a palavra não é nenhum exagero) do clássico, comecei a interrogar-me se a nossa presente situação cultural e intelectual não será a de um posfácio, de um epílogo mais ou menos confuso. Surgirão de novo um Platão ou um Mozart, um Shakespeare ou um Rembrandt, uma Divina Comédia ou uma Crítica da Razão Pura? Em termos lógicos a questão é disparatada. O próximo Miguel Ângelo pode nascer amanhã; ou pode estar a nascer hoje, na rua ao lado. Por que não há-de haver um Proust caribenho, um Beethoven africano? Mas acreditamos sinceramente nesse advento? Ou haverá razões para uma sensação de crepúsculo?

[…]

De um modo quase inconsciente, a excelência amedronta. Pouco importa. Uma vez expostos ao vírus do absoluto, uma vez vista, ouvida e «cheirada» a febre daqueles que buscam a verdade desinteressada, algo do seu brilho crepuscular persistirá nos jovens em questão. Para o resto das suas carreiras, provavelmente bastantes normais e insignificantes, para o resto das suas vidas privadas, esses homens e mulheres estarão equipados com uma salvaguarda contra o vazio.”

 

George Steiner

(excertos de “Errata: An examined life“ - 1997)

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Alguns riscos


Indícios?, por demais

um tremendo cansaço

de coisas feias, e daí

sons, diversos traços

caracteres alguns

de um rasto só


Algum tempo:


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Junho 2006/Junho 2012

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Demasiados. Não cabem aqui. É tudo gente discursivamente feia. Acendendo a TV ou ouvindo quem fora dela reproduz agendas mediáticas, entre o vómito e o tédio a lista tornar-se-ia insuportavelmente longa.


Uma chave, mais um chavão? A cultura popular do início deste séc. XXI fede !


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