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O Tempo não passa de uma bota-de-elástico (questão lateral: como raio seriam essas botas?)

por JQ, em 22.02.16

Minha, não só minha, culpa. No post de baixo, ilustrei uma reflexão, talvez demasiado redutora, sobre a crescente decadência da música e cultura popular nas últimas décadas. Para tanto, bastou-me comparar a MTV de há quinze anos, onde ainda se podia cruzar olhares e tímpanos com algumas músicas divergentes da pop mais bestificante, com a MTV actual: um aterro de lixo, pleno de músicas de bosta e reality shows do piorio.

 

Como, por falta de noção do Todo, é recorrente acontecer-me, pouco depois, espeto-me sempre com o trombil na porta das minhas opiniões. No quase sempre interessante Open Culture, num artigo sobre a emissão inicial da MTV, encontrei uma listagem dos 10 primeiros vídeos/músicas que o canal emitiu em 1.8.1981. Céus! Ressalvando um par de excepções (The Who e The Pretenders), poderia igualmente descrever os restantes como “bosta” e “bestificantes”.

 

Daí que seria bem pouco kosher judiar com a música pop actual se não judiasse também comigo - isto como introdução à suspeita de que devo estar a sofrer de uma espécie de alzheimer musical. Traduzo: talvez devido ao cansaço de tanto lixo actual, que me tem induzido a não procurar/encontrar quase nada de novo/interessante nos últimos tempos, acaba por ser mais fácil valorizar músicas do meu passado e outras cada vez mais distantes da música popular. Contra mim falo:

 

Uma das criaturas mais bem-humoradas que já encontrei em Lisboa, comunista ortodoxo e coleccionador do Jornal “Avante!”, deixou-me ler um exemplar, salvo erro, de 1931. Dele mantenho uma vaga memória visual de um pequeno artigo de rodapé. Nele, sem poder recordar a sequência exacta do fraseado, o autor perorava contra a então novidade do Cinema, exortando a juventude a evitar os efeitos nefastos da Ilusão [sic].

 

Se, por si só, não fosse já divertida a linguagem política daquele tempo, plena de 2ªs pessoas do plural (“Jovens, vós que…”), o facto de se dirigir à geração do meu avó revela bem o histórico disparate, subjacente ao lugar-comum de os mais velhos julgarem os mais novos, e tudo o que vier a seguir, como mais incapaz, enfim, como sempre pior do que aquilo que ficou para trás. Uma atenuante? Sem esse atrito entre gerações, as seguintes raramente tentarão ir mais além e até poderão ser mais reaccionárias do que das anteriores. Adiante:

 

Boris Vian faleceu em 1959. Se ainda fosse vivo, talvez repetisse o que escreveu em «En Avant La Zizique»: haverá sempre botas-de-elástico que dirão “no nosso tempo isto era melhor”, esquecendo que “isto” apenas os designa a eles próprios. No “tempo deles” eram eles que tinham 20 anos. É evidente que estavam melhor, basta olhar para eles agora. Não podiam estar pior, isso não seria humano.

 

 

Rodapé:

Em termos de pop e rock nacionais, ainda consigo ouvir alguns actuais. Começando pelos “talvez mais conhecidos”: B Fachada (letras bem achadas e uma diversidade melódica, harmónica e rítmica longe do comum; um exemplo? “É pra Meninos”), Paus, Gala Drop, Noiserv, Sensible Soccers, peixe:avião. E, “talvez mais desconhecidos”, ainda hoje descobertos: Moloch e 10.000 Russos. Haverá, decerto, outros mais. O óbice crescente reside no triste facto de os meios de divulgação predominantes preferirem opções mais fáceis e eu, cada vez mais cansado, disso e por isso, cada vez mais snob, já quase nem busco pop-rock actual. Lamento.

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Alguns riscos


Indícios?, por demais

um tremendo cansaço

de coisas feias, e daí

sons, diversos traços

caracteres alguns

de um rasto só


Algum tempo:


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Junho 2006/Junho 2012

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T ; José Carvalho da Costa, Francisco Q ; Alcino V, Vitor P ; José Carlos T, Fernando C, Eduardo F ; Paulo V, "Suf", Zé Manel, Miguel D, S, Isabel, Nancy ; Zé T, Marcelo, Faria, Eliana ; Isabel ; Ana C ; Paula, Carlos, Luís, Pedro, Sofia, Pli ; Miguel B ; professores Manuel João, Rogério, Fátima Marinho, Carlos Reis, Isabel Almeida, Paula Morão, Ivo Castro, Rita Veloso, Diana Almeida


Outros que, no exacto antípoda dos anteriores, despertam o pior de mim:


Demasiados. Não cabem aqui. É tudo gente discursivamente feia. Acendendo a TV ou ouvindo quem fora dela reproduz agendas mediáticas, entre o vómito e o tédio a lista tornar-se-ia insuportavelmente longa.


Uma chave, mais um chavão? A cultura popular do início deste séc. XXI fede !


joseqcarvalho@sapo.pt


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