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Outra fábula

por JQ, em 23.02.15

tragedia-sem-fim.png

 

Voz off:

Os salmões, em virtude da sua pertinácia e persistência contra-corrente, sabem-na melhor do que nós: essa história, em que os rios nascem nas montanhas e desaguam no Mar, soa a comédia destinada a vítimas de creche paroquial. A sua versão, escrita por um salmão grego (Demis Roussos, talvez), assegura que o Mar, enfermo de imensidão, cansado de tanta onda para lá e para cá, terá entrado pela Terra dentro, sem pressas, só para espairecer, mudar de paisagem.

 

Certo é que por vezes se erguem barragens e o Mar senta-se ali, manso como um pântano, entre margens e uma parede enorme, que verte águas de quando em vez. Dizem que assim se faz electricidade. Mentira. Trata-se de estática apenas, pois para o Mar terminar os seus dias dentro da Terra são precisos incontáveis acidentes.

 

Noutra versão, porém, o Mar e a Terra perdendo se vão de amores, até surgirem um ou mais rios, os quais podem viver durante milénios ou não, dependendo do ponto em que o amor dos seus pais se perdeu.

 

Antes do resto, uma pausa para perguntar: Quem surge de uma grave paixão, e dela vive rodeado, perdurará mais do que os nascidos da indiferença, sobreviventes da convenção? Guardem-se as respostas dentro de cada um. Ninguém delas fará uso, pois esta tragédia não tem fim.

 

Os antepassados dos actuais habitantes do Norte de África, por exemplo, não devem ter sabido cuidar da terra, já que a água se fartou e simplesmente se foi. Daí que, bisbilhotando um pouco, o Sahara se assemelhe a uma viúva melancólica, árida por fora e por dentro um-nunca-se-sabe.

 

Outra versão desta lenda assegura que nada disto se passou dessa forma. Naquele tempo, Mediterrâneo e Sahara, pouco depois de se conhecerem, imaginaram rios e, logo após, viram pessoas a cercarem os rios e, atrás das pessoas, cimento, asfalto, paralelos, quadrados, cubos infinitos, e ainda redes de esgotos, poços de petróleo, túneis, minas, perfurações várias e outras torturas dignas do Santo Ofício.

 

Desencantados com o futuro desenhado sabe-se-lá-por-quem, decidiram não se multiplicar nem pulular nem coisa parecida. Ficariam lado a lado, enquanto o seu presente durasse. E assim se foram tocando aqui e ali.

 

Hoje, com Sahara a estiolar de desolação progressiva, Mediterrâneo, mesmo sabendo que o seu próprio fim não estará muito longe, continua a seu lado, sem arredar pé. Querendo, poderia escapar por Gibraltar, fugir pelo Atlântico fora, mas não, nem pensar nisso. Depois vinha o Índico, o Pacífico, todos os outros e ainda o Mar da Tranquilidade na Lua e um nunca-mais-parar.

 

E tempo para tudo conhecer? O mais possível nunca bastou. Tudo ou nada, depreendeu dos seus pais, diante da superfície, onde tudo aparenta ser demasiado vasto. Entre tanto ruído, perder-se-ia, decerto, cego pelo vácuo actual.

 

Outra versão defende que em coisas assim, e até nas outras, há sempre demasiadas versões. Por exemplo, há ainda aquela em que

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Alguns riscos


Indícios?, por demais

um tremendo cansaço

de coisas feias, e daí

sons, diversos traços

caracteres alguns

de um rasto só


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Demasiados. Não cabem aqui. É tudo gente discursivamente feia. Acendendo a TV ou ouvindo quem fora dela reproduz agendas mediáticas, entre o vómito e o tédio a lista tornar-se-ia insuportavelmente longa.


Uma chave, mais um chavão? A cultura popular do início deste séc. XXI fede !


joseqcarvalho@sapo.pt


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