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Privacidades

por JQ, em 13.09.15

 

Julgo ter acabado de bater o meu recorde pessoal de dias consecutivos com o telemóvel permanentemente desligado. Algum orgulho nisso? Bolas, p.f.! Claro que não. Até chego a invejar o tecnológico sobrevalor, o duvidoso jeito de alguns que ainda tentam comunicar. Eu já não, lamento. Esta tendência teve início há uns meses, quase por acaso: a bateria, já com alguns anos, foi-se desligando e, ao fim de um par de dias, fui reparando não apenas no silêncio do “animal”, mas também numa estranha sensação de conforto subjacente. Daí ter vindo a alongar cada vez mais essa experiência. Adiante.

 

Na sempre inconfortável revessa da Srª Agustina (perdoe-me, se puder, a mais pura maldade na subsequente, oh, tão irrelevante questão: por que raio, para sempre querida senhora, durante os seu sessentas, setentas, tantos eteceras seus durante o século passado, não existia qualquer hífen entre Bessa e Luís e depois…?): Bom, esta dúvida, nunca pertinente, poderia servir como final imperfeito deste episódio. Não serve. Recapitulando:

 

 

 

Ao fim de quase duas décadas, já/ainda vou no meu terceiro telemóvel. Não comprei nenhum deles. Ofereceram-me o primeiro na segunda metade dos noventas do século passado. Algo contrariado, aceitei-o, pois fazia sentido: tinha acabado de ser colocado a 300 kms de casa. Desde então, com a crescente aproximação geográfica entre “o trabalho e a casa”, foram inúmeros os momentos em que olhei para esse minúsculo “animal doméstico” como um intruso.

 

A sério, muito antes desta idade semi-provecta, já tinha uma noção quase exacta de mim, enquanto comunicador electrónico. Sei-me quase completamente distante, e é só por isso que ainda não tenho um gato: iria desfalecer de remorsos por deixá-lo sozinho: detestar-me-ia se para ele eu não fosse mais do que uma qualquer divindade ausente. Bom ou mau, apesar de não ter sido exactamente amamentado pela mãe biológica, certo é que sou mamífero. Pior ainda, primata, ou seja, parece que devo obrigar-me a pertencer a um grupo de habitantes deste planeta que privilegia a comunicação, as festas e os catares possíveis, enfim, uma outra aparência primata disso.

 

A verdade é que, entre os meus dez e muitos e os trinta e poucos, terei feito um esforço, quase sobre-humano, para interagir com os meus semelhantes. Desde então, de ilusão em desilusão - próprias e alheias, claro -, comunicativamente fui sempre descendo, até chegar onde actualmente me sinto: imerso numa vontade cada vez menor de contribuir para o imparável ruído em redor.

 

A sério, é muito simples: não vejo em mim qualquer possibilidade de diminui-lo - ao ruído - nem de convencer uma borboleta, uma lagarta sequer, a acreditar que de alguma comunicação surja alguma aprendizagem.

 

 

 

Para quem há muito me conhece, esses meus/maus sinais já vêm de longe. São meus, de mim só, e disso não tenho qualquer direito a exigir compreensão de ninguém, mas, dada a tal semi-provecta idade, também sinto um mínimo direito de preservar o que resta da minha paciência, diante de tanto lixo informativo.

 

Sim, só um bronco talvez não pressinta que a maior parte das conversas, reais e virtuais, quase só reflecte agendas mediáticas ditadas, glosadas, repetidas até à exaustão, por quem só tenta prolongar a celeridade do seu salário ou status de “celebridade”.

 

 

Não é de agora, mas vai-se tornando mais frequente a vontade de que ninguém me chateie com “isso”. Daí o impulso crescente de desligar o telemóvel (sempre ao fim-de-semana e cada vez mais durante os dias chamados úteis). Claro que tal, como todas as decisões radicais, tem um preço do caraças. Quase ninguém entende. Religa-se o telelé e encontra-se sempre dúzias de chamadas não atendidas, sms’ de meia dúzia de pessoas que, decerto, deveras gostam de mim – disso não duvido, haja quem -, mas que se preocupam demasiado com o meu silêncio.

 

Já perdi a conta às vezes em que lhes repeti que esse/este é o meu ritmo mais natural, mas ninguém parece acreditar. “A tecnologia permite? Então, tens de ficar permanentemente contactável” é o que surge nas entrelinhas. Receio que se algum idiota bem-intencionado, daqui a uns anos, se lembrar de convencer o resto do universo “conhecido” a alinhar num referendo com vista a determinar se todos os cidadãos deveriam ser obrigados a estar sempre comunicáveis, a maioria talvez votasse afirmativamente.

 

 

 

Ei, gente boa!, ainda com um mínimo de consciência do passado e do tempo actual, não está fácil escapar a tanto lixo, pois não? Receio pedir demasiado: em todo o planeta talvez já não haja sequer uma ilha, um atol sequer, minimamente disponível para um marginal se sentir como tal.

 

Bolas, repito-me: tenham dó em mi, absoluto réu, deixem que lá e aqui, alguém só, fá em si?, permita alguma liberdade aos desertos minimamente saudáveis que ainda restam em mi, fá em si, lá e aqui, que alguém só, que algum sol permaneça em redor, n’é?

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De Anónimo a 13.09.2015 às 20:39

Não a 100% de acordo com o seu texto, mas quase...
Sucinto e magnífico, o vídeo do G. Grass. Será que posso, eventualmente, pô-lo no Arpose?
Os melhores cumprimentos, do
APS
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De JQ a 14.09.2015 às 11:53

Caríssimo APS, se nem eu concordo comigo completamente, ser-me-ia bem difícil respeitar a inteligência de quem concorda comigo a 100%. Claro que por mim pode sempre quiser (acho que deveria perguntar antes ao Sr. Grass... piada sem qualquer graça: bom, eu bem tenho tentado, mas desde Abril de 2015 isso ficou algo difícil)  

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caracteres alguns

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Demasiados. Não cabem aqui. É tudo gente discursivamente feia. Acendendo a TV ou ouvindo quem fora dela reproduz agendas mediáticas, entre o vómito e o tédio a lista tornar-se-ia insuportavelmente longa.


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