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"Local geographics"

por JQ, em 25.11.16

Gostava de contar uma história de “amor” do modo mais simples possível, para não soar a ficção. Trata-se de um relacionamento meio estranho que se foi estabelecendo, desde o seu nascimento, entre mim e uma gata. O «"amor"» pode carregar nos ombros um montão de aspas. Esta gata não. Era mesmo um felino do “sexo oposto”. A mais frágil de uma ninhada de quatro irmãos. Daí que só costumavam restar-lhe as últimas sobras da comida que eu ou a minha mãe distribuíamos, daí ter começado a separar a repartição de comida: primeiro para os três irmãos e, à parte, só para ela.

 

Bom, tenho quase a certeza que o estupor da gata reparou no meu tratamento preferencial de inspiração algo marxista ou cristã. Certo foi que nas minhas visitas bi ou tri-anuais à cidadezinha natal, mal punha os pés no quintal materno ela saltava sei eu lá donde e vinha miar ou aninhar-se aos meus pés. Nem sempre por comida, quase sempre por afecto, suspeito. Nunca tentei tocar-lhe, o que poderia afugentá-la, tanto para ela se sentir segura perto de mim, como para nunca confiar em humanos.

 

Gata-quintal-materno_Natal-2015_1.jpg

 

Tinha um miar muito discreto, extremamente sedutor, simultaneamente baixo e não demasiado agudo, tal como algumas intérpretes da “chanson française” dos anos 50 e 60. Incapaz de falar línguas humanas com animais, pois acho que não devemos humanizá-los, de quando em vez tentava imitar o seu tom e, então, ficávamos largos minutos num diálogo como que com papagaios. Aquela correspondência derretia-me, até por ser rara tal sintonia com humanos. Surpreendido várias vezes neste acto pela minha própria mãe, esta, apesar de pouco dada a ironias, chegava a perguntar: “Então, como é que vai a tua filha?”.

 

Para o cenário não ficar demasiado idílico, ocorreu um senão. Ao fim de dois anos, estando eu presente, o raio da gata já não deixava os irmãos aproximarem-se da comida. Rosnava e “esmurrava-os” para ser ela a primeira a comer, sim, porque ela, apesar de mais fágil, era “a minha favorita”. Chiça, tal como alguns mais ingénuos adeptos no início de ditaduras do proletariado, logo exterminados pelo cruel pragmatismo de Lenines e Estalines, pensei: “Céus, criei um monstro!”. Irrelevei. Qual deus pagão, segui adiante, pois a gata, apesar da sua natureza felina, continuava a demonstrar uma quase incondicional adoração por mim.

 

Gata-quintal-materno_Natal-2015_2.jpg

 

Entretanto, reproduziu-se no quintal vizinho, deserto de inquilinos humanos. Teve um puto loiro, muito assustadiço. Quando lá cheguei, na última Páscoa, estranhei ela preferir a minha companhia à do filho. Bastava abrir a porta do quintal para inalar umas fumaças e logo ela abandonava a cria, vindo ter comigo. E ficava sempre perto, como se tivesse esquecido de ser mãe. Pouco demorou até entender que o interesse pela comida raramente a movia. Oh, os truques que tentei para que ela alimentasse o miúdo convenientemente: dispus pedaços de comida em cima do muro, no próprio quintal, atirei-os para o quintal vizinho, sempre sob o receio de que a sua primeira gravidez não fosse bem-sucedida. Por vezes, ia ao quintal a meio da noite e ela lá estava, demasiado perto de mim, distante do filho, quiçá à minha espera.

 

Entrementes, no último par de anos, durante as minhas visitas bi-tri-anuais, fui reparando na progressiva diminuição do número de gatos nas redondezas: um perímetro de cerca de 200 x 100mts de quintais no centro da minha cidadezinha natal, onde, apesar de cercados por ruas movimentadas, sempre houve umas duas dúzias de gatos bastantes para animar a paisagem vegetal. Haverá quem prefira Xanax. Para obter o mesmo efeito, sempre me bastou observar, a uma distância confortável para os mais fragéis, quer no quintal materno ou na BBC Wild Life, alguma harmónica diversidade entre a vida vegetal, animal e humana.

 

Gata-quintal-materno_Natal-2015_3.jpg

 

Cheguei a suspeitar de alguma velha maluca, avessa a felinos – há sempre demasiadas em cidadezinhas tradicionais -, que andasse a envenenar a comida da gataria. Este Novembro descobri a verdade: há realmente uma velhota por perto, que, decerto com a melhor das intenções, foi construindo um abrigo para gatos. Coercivamente ou seduzindo-os com comida, apreendeu-os num recinto fechado. Faz-me alguma impressão o seu acto.

 

Remeto-me para as notícias recentes sobre a Segurança Social britânica ter retirado a custódia dos filhos a famílias com dificuldades em sê-lo. Cada caso é um caso, diz-se. Será que em todos, quando por razões sobretudo economicistas, é preferível separar os filhos de suas mães? Duvido. De volta aos gatos, as minhas razões? 1º, pela sua capacidade de improviso, suponho ser raro algum gato morrer de fome; 2º, os animais e os humanos mais selvagens não devem ser aprisionados, nem sequer humanizados a troco de comida; 3º, estes quintais, agora só habitados por vegetais, ficaram deveras aborrecidos. Já nem lá vou fumar tanto.

 

Acho que conheço os gatos. Se a comida e as grades forem bastantes, não consigo imaginar esta gata a morrer de saudades de mim. A mal dizer, não imagino nenhum ser vivo com saudades de mim. Suponho que a maior parte confunde a minha ausência quase budista em incomodar seja quem for com a mais cruel indiferença. Bom, se bem que a uma distância quase felina, ainda persisto atento ao que vai por perto e por longe. Peço desculpa por um post tão básico, mas precisei dizer isto. Sinto saudade de um 'amor' quase sem aspas.

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Indícios?, por demais

um tremendo cansaço

de coisas feias, e daí

sons, diversos traços

caracteres alguns

de um rasto só


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