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Um pouco mais de Além, p.f.

por JQ, em 01.09.14

 

Entre algumas coisas pelas quais tardo em perder o respeito, a poesia, a pintura e a fotografia (enfim, com alguma filosofia subjacente) têm conseguido manter a maior parte do meu interesse, mas nem sempre revelam tudo e quase nunca o Todo. Por vezes, não passam de distracções de falos e falas. Nisto, enquanto vou tentando transfigurar o que parece real,  falo de mim e de alguns mais. Exemplo? Com um atraso de uma década, reparei há bem pouco numa ideia algo peregrina: “O Gene de Deus” (sic).

 

Em 2005, o geneticista Dean Hamer publicou um livro, onde divulgou resultados de uma experiência de que terá resultado a descoberta, no DNA de todos os humanos, de um gene, a que chamou “VMAT2” e, segundo ele, justificaria a necessidade e a busca de transcendência presente em qualquer um de nós.

 

Naturalmente, quer no meio religioso quer no meio científico, os comentários dividiram-se. No primeiro ecossistema, alguns disseram que Deus não precisa de justificação científica. No segundo, alguns alegaram o oposto exactamente simétrico. Em ambos os campos, outros aproveitaram os mesmos resultados para criar uma qualquer síntese, talvez conveniente para cada defensor ou detractor, entre o que é ser humano e o que talvez seja ou fosse divino.

 

Simplificando: em quase todos comentários encontrei argumentos próximos da razoabilidade. Quanto à proposição inicial de Dean Hamer, sem querer nem poder diminuir o seu trabalho e conclusões (quem sou eu para duvidar de quem tanto suou entre milhentas linhas do código genético de milhares de criaturas?), apenas porque não nasci ontem, ainda respiro e leio - tento vislumbrar -, e oiço o que posso – bom, evito não ser inteiramente surdo -, durante o meu tempo “livre” (perdido entre poesias, pinturas e fotografias, enfim, com alguma filosofia sempre subjacente), vou pressentindo que essa necessidade de transcendência talvez não seja exclusiva dos primatas mais evoluídos.

 

Já me cruzei com alguns. Porventura, haverá dezenas, centenas, talvez milhares de exemplos de vídeos na Net, que talvez sirvam para comprovar, senão consciência, uma tendência, talvez natural em todos os seres deste planeta, para suplantarem os limites iniciais da sua herança genética.

 

Repito-me: até na crisálida que almeja ser borboleta; na raiz que deseja o caule; neste que sonha a flor; talvez mesmo na paciente rocha, que espera inimigos ventos para se tornar areia sempre carente do afago das marés; e daí nutritivas algas, pré-alimento de quem veio depois (oh, tantos!), seja perceptível esse desejo de transcendência.

 

Pequena pausa: sou horrivelmente humano durante a maior parte do meu tempo. Por exemplo, mantenho, quase todas as manhãs, uma conversa nada bonita com a minha sanita, em que só o autoclismo serve de redenção entre ambos. Mas, nesse entretanto, vou pensando:

 

Em 1975, terá passado pela cabeça – pela boca, pelo menos – de Otelo Saraiva de Carvalho a ideia de encerrar os mais ricos e mais influentes reaccionários no Campo Pequeno, eliminando-os talvez à semelhança dos métodos utilizados por Pinochet com os marxistas chilenos um par de anos antes. Ainda hoje há quem acredite que isso teria evitado a retoma, pouco anos após, das rédeas da economia e do poder por parte das famílias ancoradas no regime de Salazar - Mellos, Espíritos Santos, Champalimauds e adjacentes. Talvez, digo eu, mas duvido.

Sem discordar da necessidade de renovação e mobilidade social, enquanto valor positivo na evolução de qualquer indivíduo ou sociedade, nada garante que a medida de Otelo, se concretizada, conseguisse trazer benefícios concretos para a maior parte da população. Não se trata apenas de desconfiar da influência que o poder, sob qualquer forma, exerce no comportamento de qualquer indivíduo, pois é evidente que quase todos adoram ter um brinquedo, um par de sapatilhas, um fato, até factos/argumentos mais vistosos do que os dos outros. Mas daí, se outras famílias ou grupos tivessem substituído os anteriores, não se afigura muito previsível que a estrutura sócio-económica portuguesa fosse muito diferente da actual.

 

Talvez os nomes fossem outros e pouco mais. Basta reparar no que aconteceu no Leste da Europa desde 1989, onde demasiados membros dos Partidos Comunistas trocaram o poder político pelo controlo das grandes empresas. Sem recuar tanto assim, basta ter a oportunidade (que eu tive) de ouvir delegados sindicais da SONAE – um grupo/família relativamente recente no sistema político/financeiro português - a queixarem-se do clima persecutório que se vive naquelas empresas, de cada vez que alguém se lembra de reclamar os mais básicos direitos laborais.

 

Este meu intento, contudo, também não é apresentar um quadro pessimista, ou derrotista, sobre a natureza humana, o que seria um tique bem mais adequado a choraminguices demasiado juvenis. À partida, da soma de impulsos, muitos deles contraditórios, existentes em cada indivíduo e em cada sociedade, nunca é garantido que deles advenha, sempre, um resultado negativo ou positivo. Afinal, existe uma ligação muito estreita entre evolução e conflitos. Mais uma vez, é apenas óbvio que, quando algum indivíduo/grupo atinge uma posição de conforto ou de poder, o mais previsível é fazer tudo ao seu alcance para mantê-la.


Há quem acredite, e julgue natural, que a obrigação de todos os outros será apenas tentar substituí-los. E outra vez: conseguir o melhor brinquedo; as melhores sapatilhas; o melhor fato; o melhor facto-argumento; e o resto que se lixe. Conclusão medíocre, é o que acho, apesar da presunção de superioridade moral implícita.

 

Não sei ao certo. Talvez tenha lido demasiada História, talvez tenha ficado demasiado impressionado com a moral da história decorrente da maior parte dos documentários sobre a vida animal. Sim, para jovens lobos até pode soar saudável para os ecossistemas o relacionamento desigual entre presas e predadores.

 

Mas, após o tremendo corte epistemológico ocorrido entre o ante- e o após-Buda, entre o Velho e o Novo Testamento, entre a barbárie do mais duro Mercantilismo e uma boa parte do Marxismo, impossível é não suspeitar que os predadores serão talvez úteis, ou nem apenas, no Parque Nacional do Serenghetti, em Wall Street e outras tóxicas reservas dela derivados.

 

A partir do momento em que algumas religiões e ideologias embutiram um chip moral algures no córtex da maior parte de nós, talvez seja tempo de experimentar outros ecossistemas mais benignos para a nossa espécie e para este planeta; mesmo sabendo que não somos nem nascemos todos iguais (e que, só por isso, vão existir sempre conflitos, e ainda bem, pois a monotonia hippie/new-age apenas rima com sensaboria), parece-me ser tempo de acreditar, uma vez por todas as que fracassaram, que, se bem que ainda animais sós, já não somos exactamente só animais.

 

Sem esquecer a utilidade de instintos mais primevos para a sobrevivência de cada um e das espécies em geral, talvez já seja tempo de ir um pouco mais longe. Entre aquilo que fomos e algo mais que pretendemos ser, entre a monotonia que nos cerca e prende, o que raio nos resta senão o desejo de ir sempre um pouco mais além?

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Alguns riscos


Indícios?, por demais

um tremendo cansaço

de coisas feias, e daí

sons, diversos traços

caracteres alguns

de um rasto só


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