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por JQ, em 14.11.13

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

algumas brumas antigas, 198?

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por JQ, em 14.11.13

 

O que me faz escrever este poema

não são as coisas: terra céu astros.

A saber: estendo a mão: e

o mundo reconhece-a encontra a

 

memória onde repousa e se transforma.

Pequena questão de valor cósmico. Insisto:

elo que liga bruma e fumo

felicidade de imagens nome inamistoso.

 

Não sonho palavra sonho barco.

Imóvel aprendo a não esquecer:

aspecto mineral do corpo

um destino de mica qualquer coisa

que não cessa de bater.

 

 

em Vinte e Nove Poemas,

João Miguel Fernandes Jorge, 1978

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por JQ, em 14.11.13

Smoke Gets In Your Eyes, Bryan Ferry, 1974 (orig. Jerome Kern e Otto Harbach, 1933)

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por JQ, em 14.11.13

 

Dez horas da manhã; os transparentes

Matizam uma casa apalaçada;

Pelos jardins estancam-se os nascentes,

E fere a vista, com brancuras quentes,

A larga rua macadamizada.

 

Rez-de-chaussée repousam sossegados,

Abrigam-se, nalguns, as persianas,

E dum ou doutro, em quartos estucados,

Ou entre a rama dos papéis pintados,

Reluzem, num almoço, as porcelanas.

 

Como é saudável ter o seu aconchego,

E a sua vida fácil! Eu descia,

Sem muita pressa, para o meu emprego,

Aonde agora quase sempre chego

Com as tonturas duma apoplexia.

 

E rota, pequenina, azafamada,

Notei de costas uma rapariga,

Que no xadrez marmóreo duma escada,

Como um retalho de horta aglomerada,

Pousara, ajoelhando, a sua giga.

 

E eu, apesar do sol, examinei-a:

Pôs-se de pé; ressoam-lhe os tamancos;

E abre-se-lhe o algodão azul da meia,

Se ela se curva, esguelhada, feia,

E pendurando os seus bracinhos brancos.

 

Do patamar responde-lhe um criado:

«Se te convém, despacha; não converses.

Eu não dou mais» E muito descansado,

Atira um cobre lívido, oxidado,

Que vem bater nas faces dum alperces.

 

Subitamente - que visão de artista! -

Se eu transformasse os simples vegetais,

À luz do sol, o intenso colorista,

Num ser humano que se mova e exista

Cheio de belas proporções carnais?!

 

Bóiam aromas, fumos de cozinha;

Com o cabaz às costas, e vergando,

Sobem padeiros, claros de farinha;

E às portas, uma ou outra campainha

Toca, frenética, de vez em quando.

 

E eu recompunha, por anatomia,

Um novo corpo orgânico, aos bocados.

Achava os tons e as formas. Descobria

Uma cabeça numa melancia,

E nuns repolhos seios injectados.

 

As azeitonas, que nos dão o azeite,

Negras e unidas, entre verdes folhos,

São tranças dum cabelo que se ajeite;

E os nabos - ossos nus, da cor do leite,

E os cachos de uvas - os rosários de olhos.

 

Há colos, ombros, bocas, um semblante

Nas posições de certos frutos. E entre

As hortaliças, túmido, fragrante,

Como dalguém que tudo aquilo jante,

Surge um melão, que me lembrou um ventre.

 

E, como um feto, enfim, que se dilate,

Vi nos legumes carnes tentadoras,

Sangue na ginja vívida, escarlate,

Bons corações pulsando no tomate

E dedos hirtos, rubros, nas cenouras.

 

O sol dourava o céu. E a regateira,

Como vendera a sua fresca alface

E dera o ramo de hortelã que cheira,

Voltando-se, gritou-me, prazeirenta:

«Não passa mais ninguém!... Se me ajudasse?!...»

 

Eu acerquei-me dela, sem desprezo;

E, pelas duas asas a quebrar,

Nós levantámos todo aquele peso

Que ao chão de pedra resistia preso,

Com um enorme esfoço muscular.

 

«Muito obrigada! Deus lhe dê saúde!»

E recebi, naquela despedida,

As forças, a alegria, a plenitude,

Que brotam dum excesso de virtude

Ou duma digestão desconhecida.

 

E enquanto sigo para o lado oposto,

E ao longe rodam umas carruagens,

A pobre afasta-se, ao calor de Agosto,

Descolorida nas maçãs do rosto,

e sem quadris na saia de ramagens.

 

Um pequerrucho rega a trepadeira

Duma janela azul; e, com o ralo

Do regador, parece que joeira

Ou que borrifa estrelas; e a poeira

Que eleva nuvens alvas a incensá-lo.

 

Chegam do gigo emanações sadias,

Oiço um canário - que infantil chilrada! -

Lidam ménages entre as gelosias,

E o sol estende, pelas frontarias,

Seus raios de laranja destilada.

 

E pitoresca e audaz, na sua chita,

O peito erguido, os pulsos nas ilhargas,

Duma desgraça alegre que me incita,

Ela apregoa, magra, enfezadita,

As suas couves repolhudas, largas.

 

E como as grossas pernas de um gigante,

Sem tronco, mas atléticas, inteiras,

Carregam sobre a pobre caminhante,

Sobre a verdura rústica, abundante,

Duas frugais abóboras carneiras.

 

 

Num Bairro Moderno, Cesário Verde (ed. 1901)

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por JQ, em 12.11.13

© Comedy, Inc. (Australia)

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por JQ, em 12.11.13

[…] Creio que devia começar a trabalhar em algo, agora que vou aprendendo a ver. Tenho vinte e oito anos e até aqui aconteceu tanto como nada. Repito: escrevi um estudo sobre Carpaccio, que é mau; um drama chamado «Matrimónio» que, por equívocos meios, pretendeu provar qualquer coisa de falso; e versos. Ah, mas que significam os versos, quando os escrevemos cedo! Devíamos esperá-los enquanto acumulamos sentido e doçura durante toda a vida e, se possível, durante uma longa vida, e, só então, no fim, talvez pudéssemos escrever dez bons versos. Porque os versos, ao contrário do que pensam as gentes, não são sentimentos (esses acontecem bastante cedo), - são experiências. Por amor de um verso, temos de olhar muitas cidades, homens e coisas, temos de conhecer os animais, sentir como voam as aves e saber o gesto que abre as flores pela manhã. É preciso pensar de novo caminhos em regiões desconhecidas, encontros inesperados e despedidas que olhamos vindas de longe, - em dias de infância ainda não esclarecidos, nos pais que tivemos de magoar quando nos traziam uma alegria sem que nós a compreendêssemos (era uma alegria para outro-), em doenças de infância que começam de maneira tão estranha com tantas transformações profundas e graves, em dias passados em quartos calmos e recolhidos e em manhãs à beira-mar, no próprio mar, em mares, em noites de viagem que passaram sussurrando alto e voaram com todos os astros, - e ainda não é bastante poder pensar em tudo isto. É preciso recordar muitas noites de amor, das quais nenhuma foi igual a outra, gritos de mulheres no parto e parturientes ligeiras, brancas e adormecidas no seu fecho. Mas também é preciso ter estado ao pé de moribundos, sentado perto de mortos, no quarto com a janela aberta, e dos ruídos que vinham por atalhos. E também não é ainda bastante ter recordações. É preciso saber esquecê-las quando muitas, e é preciso, com enorme paciência, esperar pelo seu regresso. Pois mesmo as recordações ainda não são o que é preciso. Só quando elas em nós se fazem sangue, olhar e gesto, quando já não têm nome e já se não distinguem de nós mesmos, só então é que, numa hora muito rara, pode ocorrer que do meio delas se erga a primeira palavra de um verso [...]

 

 

 

excerto de Die Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge, Rainer Maria Rilke, 1910

partindo de uma tradução de Paulo Quintela (ligeiramente alterada porque, lamento Sr. P.Q.,

olhei agora o original e acabou por me soar melhor assim) encontrada no blog Arpose

(uma arca virtual bem rara, povoada por imensas coisas, belos sons, curiosidades sem fim)

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por JQ, em 10.11.13

Estoril, Outubro 2013

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por JQ, em 10.11.13

Numa das bocas do Atlântico, um cão fita um cargueiro que parece rumar ao Norte. Desarrumado

num retrato em ouro todo aberto / A luz apoia-se nos planos de ar e água sobrepostos / e entre

eles desenvolvem-se / as matérias, são quatro versos de Herberto Hélder. Ele decerto escreveu

muitos mais. Ficam para outro tempo.

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por JQ, em 07.11.13

 

Season of the Shark, Yo La Tengo, 2003

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Dos tubarões, baleias, fanecas e corais, e versos assim sobre peixinhos e paixões

por JQ, em 07.11.13

 

The world below the brine;

Forests at the bottom of the sea - the branches and leaves,

Sea-lettuce, vast lichens, strange flowers and seeds -

the thick tangle, the openings, and the pink turf,  

Different colors, pale gray and green, purple, white, and gold -

the play of light through the water,

Dumb swimmers there among the rocks - coral, gluten, grass, rushes -

and the aliment of the swimmers,

Sluggish existences grazing there, suspended, or slowly crawling

close to the bottom,  

The sperm-whale at the surface, blowing air and spray, or disporting

with his flukes,

The leaden-eyed shark, the walrus, the turtle, the hairy sea-leopard,

and the sting-ray;

Passions there - wars, pursuits, tribes—sight in those ocean-depths  -

breathing that thick-breathing air, as so many do;

The change thence to the sight here, and to the subtle air breathed by beings

like us, who walk this sphere;

The change onward from ours, to that of beings who walk other spheres.

 

 

World Below the Brine, Walt Whitman, 1860

 

 

 

 

 

About the Shark, phlegmatical one,

Pale sot of the Maldive sea,

The sleek little pilot-fish, azure and slim,

How alert in attendance be.

From his saw-pit of mouth, from his charnel of maw

They have nothing of harm to dread,

But liquidly glide on his ghastly flank

Or before his Gorgonian head;

Or lurk in the port of serrated teeth

In white triple tiers of glittering gates,

And there find a haven when peril’s abroad,

An asylum in jaws of the Fates!

They are friends; and friendly they guide him to prey,

Yet never partake of the treat—

Eyes and brains to the dotard lethargic and dull,

Pale ravener of horrible meat.

 

 

The Maldive Shark, Herman Melville, 1888

 

 

 

 

 

Wan oxymoron of a fish, dotted

dun and fledge winged, mud-feathered when

it glides through silt, by nature bottom fed.

 

Whoever named it named himself a man

of undisputed Christian eye,

who saw in mortal depths a guardian

 

and humblest trumpeter. God tongue to cry,

it haunts an earth too dread for dread-

filled man til rapture calls: Arise and fly.

 

 

Angel Shark, Hailey Leithauser, 2004

 

 

 

 

 

An ant devours a larva, in accord

with nature, and a child then eats the ant -

it burns on the tongue. Curiosity

always burns. On Paradise Beach in Goa,

 

a shark will eat the child, but when God sees,

he'll catch the shark, just as he grabs a rat,

a tigress, elephant. The poet in his room

will then eat God. He'll feed on everything.

He is a monster like a boar that bloats,

excretes. He feeds on paper. If you let

him in, he'll find your dreams, love's traces on

the sheets - he'll steal what's holy, masticate,

 

grow pasty flesh, poisonous fur. It's enough

to touch him or brush by on accident.

 

 

Ants and Sharks, Tomasz Różycki

(trad. Mira Rosenthal, ed. 2008)

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por JQ, em 06.11.13

 

"Didn't anybody tell you this river's full of lost sharks? / Didn't anybody tell you how to gracefully disappear in a room?", duas linhas de Secret Meeting, The National, em 2008

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por JQ, em 06.11.13

 

[…] / Something go wrong / I sing so low you even blame the sun / Your blame is at the cause / Of the shadows on the wall / They’re not as bad as they appear / Could it be that it’s the season of the shark? / […] / So when I fall short / I sink so low that I even blame the clouds / For blocking out the sun / And the shadows on the wall / That’s why you feel alone / Could it be that it’s the season of the shark? / […] / Just look around / If it’s not me then someone else you know / And I don’t belong at all / Ignore the shadows on the wall / They don’t mean a thing / Could it be that it’s the season? / I believe that it’s the season of the shark

 

excertos de Season of the Shark, Yo La Tengo, 2003

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Alguns riscos


Indícios?, por demais

um tremendo cansaço

de coisas feias, e daí

sons, diversos traços

caracteres alguns

de um rasto só


Algum tempo:


2017 Janeiro 2016 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho Maio Abril Março Fevereiro Janeiro ; 2015 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho Maio Abril Março Fevereiro Janeiro ; 2014 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho Maio Abril Março Fevereiro Janeiro; 2013 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho Maio Abril Março Fevereiro Janeiro; 2012 Dezembro Novembro Outubro Setembro Agosto Julho Junho


Junho 2006/Junho 2012

(arquivos não acessíveis

via Google Chrome)


Algumas pessoas:


T ; José Carvalho da Costa, Francisco Q ; Alcino V, Vitor P ; José Carlos T, Fernando C, Eduardo F ; Paulo V, "Suf", Zé Manel, Miguel D, S, Isabel, Nancy ; Zé T, Marcelo, Faria, Eliana ; Isabel ; Ana C ; Paula, Carlos, Luís, Pedro, Sofia, Pli ; Miguel B ; professores Manuel João, Rogério, Fátima Marinho, Carlos Reis, Isabel Almeida, Paula Morão, Ivo Castro, Rita Veloso, Diana Almeida


Outros que, no exacto antípoda dos anteriores, despertam o pior de mim:


Demasiados. Não cabem aqui. É tudo gente discursivamente feia. Acendendo a TV ou ouvindo quem fora dela reproduz agendas mediáticas, entre o vómito e o tédio a lista tornar-se-ia insuportavelmente longa.


Uma chave, mais um chavão? A cultura popular do início deste séc. XXI fede !


joseqcarvalho@sapo.pt


Alguns nomes:


José Afonso ; 13th Floor Elevators, The Monks, The Sonics, The Doors, Jimi Hendrix, The Stooges, Velvet Underground, Love / Arthur Lee, Pink Floyd (1967-1972), Can, Soft Machine, King Crimson, Roxy Music; Nick Drake, Lou Reed, John Cale, Neil Young, Joni Mitchell, Led Zeppelin, Frank Zappa ; Lincoln Chase, Curtis Mayfield, Sly & The Family Stone ; The Clash, Joy Division, The Fall, Echo & The Bunnymen ; Ramones, Pere Ubu, Talking Heads, The Gun Club, Sonic Youth, Pixies, Radiohead, Tindersticks, Divine Comedy, Cornelius, Portishead, Beirut, Yo La Tengo, The Magnetic Fields, Smog / Bill Callahan, Lambchop, Califone, My Brightest Diamond, Tuneyards ; Arthur Russell, David Sylvian, Brian Eno, Scott Walker, Tom Zé, Nick Cave ; The Lounge Lizards / John Lurie, Blurt / Ted Milton, Bill Evans, Chet Baker, John Coltrane, Jimmy Smith ; Linton Kwesi Johnson, Lee "Scratch" Perry ; Jacques Brel, Tom Waits, Amália Rodrigues ; Nils Frahm, Peter Broderick, Greg Haines, Hauschka ; Franz Schubert, Franz Liszt, Eric Satie, Igor Stravinsky, György Ligeti ; Boris Berezovsky, Gina Bachauer, Ivo Pogorelich, Jascha Heifetz, David Oistrakh, Daniil Trifonov


Outros nomes:


Agustina Bessa Luís, Anna Akhmatova, António Franco Alexandre, Armando Silva Carvalho, Bob Dylan, Boris Vian, Carl Sagan, Cole Porter, Daniil Kharms, Evgeni Evtuchenko, Fernando Pessoa, George Steiner, Gonçalo M. Tavares, Guy Debord, Hans Magnus Enzensberger, Harold Bloom, Heiner Müller, João MIguel Fernandes Jorge, John Mateer, John McDowell, Jorge de Sena, José Afonso, Jürgen Habermas, Kevin Davies, Kurt Vonnegut Jr., Lêdo Ivo, Leonard Cohen, Luís de Camões, Luís Quintais, Marcel Proust, Marina Tzvietaieva, Mário Cesariny, Noam Chomsky, Ossip Mandelstam, Ray Brassier, Raymond Williams, Roland Barthes, Sá de Miranda, Safo, Sergei Yessinin, Shakespeare, Sofia M. B. Andresen, Ted Benton, Vitorino Nemésio, Vladimir Maiakovski, Wallace Stevens, Walter Benjamin, W.H. Auden, Wislawa Szymborska, Zbigniew Herbert, Zygmunt Bauman


Algum som & imagem:


Avec élégance

Crazy clown time

Danse infernale

Dark waters

Der himmel über berlin

Forever dolphin love

For Nam June Paik

Gridlocks

Happy ending

Lilac Wine

L'heure exquise

LoopLoop

Materials

Megalomania

Metachaos

Nascent

Orphée

Sailing days

Soliloquy about...

Solipsist

Sorry, I'm late

Submerged

Surface

Their Lullaby

The raw shark texts

Urban abstract

Unter